Editorial - A guerra no campo
É tão assustadora a denúncia segundo a qual ruralistas do Noroeste do Estado estariam colocando minas terrestres em suas propriedades, para evitar invasões, que a primeira reação é a de incredulidade. Como se sabe, as referidas minas se constituem num dos mais bárbaros instrumentos de guerrilha já criados pelo engenho humano e foram inclusive banidas pela maioria das nações do mundo. Pensar que podem estar sendo usadas no Paraná, com o intuito de proteger propriedades, é quase inconcebível. Entretanto, como há a denúncia, é certo que as autoridades precisam, como se anuncia estão fazendo, ir a fundo. Trata-se de uma questão de tamanha gravidade que precisa ser atendida com todo cuidado, investigada e esclarecida de modo cabal.
O mais sério é que, ainda que não seja verdadeira a denúncia sobre as aludidas minas, outra das questões enfocadas na mesma acusação, relativa à aquisição por proprietários de terras de armamento pesado, também com o propósito de enfrentar as anunciadas invasões, é considerada muito provável. Como afirmou a advogada que levantou o assunto, estamos vivendo em meio a uma guerrilha, com as duas partes - donos de terra e membros do MST - se armando. E, indo além do que disse aquela profissional, não é necessário prever a ocorrência de mortes no clima que se formou diante das invasões: já houve, no Paraná e em outros Estados, nessa luta pela terra, eventos fatais, inclusive algumas chacinas que provocaram muita celeuma à época da ocorrência, mas que acabaram quase esquecidas com o correr do tempo.
O campo está em guerra. De um lado, proprietários, defendendo o que consideram o seu direito à propriedade; de outro, os sem-terra, reclamando o que também consideram um direito, a posse de um pedaço de chão para poder trabalhar e produzir para viver. No meio disso, a autoridade estadual a quem incumbe garantir a tranquilidade e a segurança para todos os cidadãos, não permitindo a ação ilegal, mas também evitando crimes e violência que não resolvem nada. E, mais além, o governo federal, que continua devendo um trabalho mais rápido e objetivo no sentido de realizar os assentamentos, de atender aos reclamos legítimos dos sem-terra, o que poderia reduzir a tensão que existe atualmente.
Como tem sido repetido exaustivamente, o campo pode dar ao Brasil a solução para todos os seus problemas. As notícias recentes sobre bons resultados da safra, com mais empregos surgindo, a vida de muitos melhorando, antecipam aquilo que se tem comentado, sempre. O Brasil tem no seu potencial agrícola a resposta para praticamente todos os anseios da população. É ali que se pode aumentar a oferta de alimentos, para acabar com a fome, ao tempo em que se tem condições de dar mais emprego e, na esteira do efeito positivo da produção, superar esta etapa de crise e criar bases sólidas para o grande salto evolutivo que todos esperam. É certo, porém, que para que isso aconteça, além de medidas concretas de apoio, por parte das autoridades, deve haver também um novo espírito a nortear a vida para se transformar a guerra pela terra em batalha pela produção.
As únicas armas que o campo precisa não são minas, metralhadoras, revólveres ou fuzis. Necessita é de arados, colheitadeiras e trabalho. É certa a exigência no sentido de se tornar produtiva a terra, que não deve ser usada para especulação ou enriquecimento. Todavia, é abusiva a ação dos que invadem terras, burlando a lei e agindo contra ela. É legítima a preocupação do proprietário ante a ameaça de invasão. Inadmissíveis, porém, são a transformação do campo em cenário de guerra, o armamento, o confronto, atitudes que apenas criam mais dificuldades para todos.





