Editorial - A greve e seus problemas
Estudantes e seus pais se mostram preocupados com os efeitos da greve dos professores. Alguns assinalam que a paralisação prejudica o desenvolvimento do ensino; outros, pensam é no efeito que a suspensão das aulas pode ter sobre as férias, por causa da necessidade de reposição depois que a greve acabar. Também há os que enfrentam um tipo diferente de problema: com a falta de aulas, os estudantes ficam em casa e em muitas famílias, com pai e mãe trabalhando, surge o problema sobre o que fazer para resolver a situação de crianças em casa sem ninguém para cuidar delas. Trata-se, sem dúvida, de questões de relevância. Entretanto, o que acaba sendo esquecido na análise dos efeitos imediatos da greve são os motivos da paralisação e, principalmente, a respeito da educação como um todo. Alguns pais de alunos chegaram a comentar o assunto, ponderando que a suspensão das aulas prejudica o ensino. É fácil perceber que há imensas falhas na educação que se oferece hoje, em nível oficial, consequência, principalmente, da falta de atenção que os governos dão a esta importante função do Estado. Os professores, aqui como em outras regiões brasileiras, pararam porque chegaram a uma situação que consideram inaceitável. O que se paga aos professores, as condições de trabalho que lhes são oferecidas, a falta de um mínimo de respeito para com sua missão, isto é que precisa ser observado e questionado.
Não é preciso ir muito longe para perceber a desvalorização de uma profissão que é um verdadeiro apostolado. Qualquer família tem enorme orgulho em anunciar que um de seus membros concluiu o curso de Medicina, ou bacharelou-se em Direito, ou formou-se em Odontologia ou Engenharia. Mas essa demonstração de orgulho e felicidade nem sempre ocorre diante de um parente que tenha se tornado professor. Professor é profissão de pobre, dizem muitos, apenas ecoando uma realidade que é muito conhecida. No entanto, há unanimidade em considerar necessário, vital, o ensino. As festas do centenário do Descobrimento tiveram como tema maior, vale rememorar, a importância da educação.
Aparentemente, dissocia-se entre nós educação de professor, como se os tempos modernos tivessem tornado supérflua a figura do mestre. Estamos na era dos computadores, da rede mundial de informática. Todavia, sem a existência de quem abra os caminhos, ensine não só a operar aquelas máquinas mas a raciocinar, a escrever, a ler, cai-se no vazio. Na verdade, qualquer tipo de observação sobre a situação do ensino no Brasil vai mostrar precisamente este vazio, a falta de condições dos estudantes, fruto da desvalorização do professor, da ausência de um mínimo de recursos para que o magistério seja exercido na plenitude de sua importância. O Estado, sabe-se, deve prover principalmente segurança, saúde e educação. Assinala-se que o item segurança deve ter certa primazia porque é algo que a iniciativa privada não pode prover. Já educação e saúde são terrenos em que é possível a presença privada, complementando a ação pública. Entretanto, não se pode deixar de reconhecer que, para a grande maioria da população, tanto a saúde quanto a educação na esfera privada estão além de suas possibilidades. Deste modo, o Estado não pode se omitir. Tem a obrigação de garantir, notadamente àquela população mais carente, educação e saúde de qualidade. Não está cumprindo isto e a greve dos professores aqui, como a do pessoal da saúde em São Paulo, é apenas um reflexo da falta de condições dignas para aqueles que querem exercer seu mister, na educação como na saúde.





