A força do diálogo
Uma cena mostrada pela TV, em que um dos líderes dos bloqueios das estradas no Paraná anunciava que não obedeceria a uma ordem judicial para permitir a passagem de caminhões, acabou por retratar em si o fato mais alarmante de toda a situação criada com a ação dos caminhoneiros no País. No momento em que uma ordem judicial não é obedecida, tem-se a quebra básica daquilo que é fundamental no sistema democrático. Quando a autoridade é contestada, a própria liberdade perde força. Até por isto, o anúncio de que o presidente Fernando Henrique Cardoso determinaria a interferência das Forças Armadas para acabar com o movimento, se justificou, apesar de haver provocado certo susto em alguns meios.
Não é missão das Forças Armadas intervir em situações internas. A recente experiência feita no Rio, quando se pediu que o Exército participasse da luta contra o tráfico, evidencia bem que há até certa impossibilidade de que isto funcione. Entretanto, a ação desencadeada pelos caminhoneiros, por sua consequência direta em inúmeros setores da vida nacional, tornaria quase inevitável o uso de medidas mais extremas como a divulgada pelo Planalto. Com o anúncio, no final da tarde de ontem, de um acordo entre governo e caminhoneiros - e que incluiu itens importantes para a categoria, referentes ao diesel e pedágios -, as ameaças acabaram dando lugar ao que parece um bom termo nas negociações, como, aliás, deveria ter ocorrido desde o início.
O país assistia ontem com evidente preocupação aos fatos que se sucediam nas horas que antecederam ao acordo. O secretário da Presidência da República, Aloysio Nunes Ferreira, já havia anunciado a disposição do governo federal em oferecer ajuda aos governos estaduais (a quem compete a preservação da ordem pública) para colocar fim aos bloqueios nas estradas. E já advertia que se a ação dos governos estaduais não fosse suficiente, seriam adotadas medidas mais sérias. Já se tinha, na verdade, um grande plano nacional para a desobstrução das rodovias com o uso do Exército, numa iniciativa de consequências imprevisíveis. A greve dos caminhoneiros foi deflagrada na segunda-feira. Empresas de todos os setores vinham parando a produção por causa da falta de matérias-primas e escoamento de produtos. Alguns Estados enfrentaram desabastecimento, inclusive de produtos essenciais. A persistência dos bloqueios, apesar do acordo firmado, passaria a representar a partir de agora um risco concreto à própria segurança interna.
O ideal, evidentemente, é sempre a solução negociada, sem que se tenha de apelar para a ação dos organismos de segurança. E por mais que se concorde com algumas das reivindicações dos caminhoneiros, que chegam a ser iguais, em determinados casos, às da maioria da população, é certo que o modo como a situação vinha evoluindo acabaria por reclamar uma ação oficial mais firme. A persistir o movimento, fatalmente o perigo crescente do desabastecimento traria uma nova ameaça, à da corrida às compras, fechando um panorama sombrio para toda a população.
Se as lideranças do movimento pretendiam mostrar sua importância no quadro nacional, já o conseguiram. Ninguém pode desconhecer o papel vital que os caminhoneiros representam no processo de desenvolvimento de nosso país. E com razão, querem ser valorizados, com preços justos nos combustíveis e pedágios e ainda estradas decentes que lhes permitam trabalhar com um mínimo de segurança. A insatisfação da categoria tem por base - e com inegável razão - o fato de o crescente custo do transporte no Brasil estar sendo praticamente absorvido pelos caminhoneiros, já que a queda da atividade econômica reduziu a demanda pelo transporte de cargas. É preciso, portanto, uma política mais perene e profunda para o setor, justamente para que o descontentamento não redunde em confrontos e, pior, nesta violência que é o bloqueio de estradas. É vital manter em mente que só em um clima de respeito à autoridade é que a liberdade democrática pode efetivamente funcionar. A saída é a negociação, como revela o próprio acordo firmado ontem, que permitiu ao país respirar mais aliviado.

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