Editorial - A força das armas
As despesas mundiais em material militar e armamento se reduziram de maneira contínua desde 1987, salvo na Ásia e no Oriente Médio, e ascenderam a US$ 740 bilhões em 1997, um terço menos do que há dez anos, segundo o informe anual do Instituto Internacional de Pesquisa sobre a Paz de Estocolmo (Sipri), publicado esta semana. O ritmo de baixa anual dessas despesas chegou a 4,5%, em média, entre 1988 e 1997. O corte mais drástico de gastos durante o período de dez anos analisado pelo Sipri, instituto independente criado em 1996 e financiado pelo parlamento sueco, foi feito na Rússia e pelos outros países da ex-União Soviética. Os gastos globais da Otan diminuíram um terço em dez anos e se elevaram a US$ 451 bilhões em 97. Outras regiões que contribuíram de maneira significativa para a redução dos gastos mundiais foram América do Norte e Central, assim como África subsaariana, enquanto na América do Sul os gastos baixaram até início dos anos 90, para aumentarem de novo de maneira global nos anos seguintes.
Esta tendência para baixo não foi seguida na África do Norte, Oriente Médio e Ásia do Sul e do Leste, frisou o Sipri. Na África do Norte, a alta de 45% em dez anos foi em grande parte devido aos gastos da Argélia, que triplicaram para chegar a 1,5 bilhão de dólares em 1997. No Oriente Médio, os gastos flutuaram de maneira considerável, com um ponto culminante durante a Guerra do Golfo em 1991, mas a alta se limitou a 9% ao longo da década (1988-97). Os países asiáticos aumentaram seus gastos militares e de armamento em mais de 25% durante o mesmo período.
Esta queda global nas despesas com armamentos decorre, principalmente, do fim da guerra fria. Poderia e deveria, porém, ser maior, o que só não acontece porque persiste, em muitas regiões do mundo, um clima de confronto, bem exemplificado com as recentes experiências nucleares realizadas por Índia e Paquistão - inimigos que, aparentemente, querem impressionar um ao outro ou tentar obter vantagens psicológicas nas disputas que existem entre ambos há meio século. Esta situação, que ainda não é a melhor, também é resultado das guerras que se travaram em seguida ao esboroamento do mundo soviético. E o conflito no Oriente Médio, que parecia a caminho de uma solução, mas que se agravou nos últimos dois anos, igualmente pressiona os gastos com armas naquela parte do mundo.
Com isto, perde a humanidade. A indústria de armamentos é, sem dúvida, poderosa e influente. Todavia, quando se sabe que os bilhões que se gastam anualmente no mundo para pesquisa, produção e aquisição de armas poderiam ser usados de modo melhor na abertura de condições mais adequadas de vida do planeta, é que se pode mesmo lamentar esta perversa forma de agir, esta insistência em se investir na morte e não na vida. Num momento tão importante da História, com a até mesmo inesperada guinada ocorrida com o fim da União Soviética, as possibilidades de se mudar as perspectivas para os bilhões de habitantes da Terra eram imensas. E continuam a ser.
O que se reclama, apenas, é que cesse esta absurda idéia de que conflitos podem ser resolvidos pelas armas. Será que Índia e Paquistão estão mais seguros, agora, quando se sabe que ambos possuem armas atômicas? Dificilmente. O que acontece lá é o aumento da insegurança, pelo equilíbrio do terror. As pendências entre os dois países apenas os obriga a gastar mais em armas, deixando de lado tantas outras prioridades que interessam a seu povo pobre e faminto. Só na medida em que o mundo precisar consumir menos recursos em armamentos é que será possível confiar num futuro melhor para o planeta.





