Editorial - A força da terra
Diante da verdadeira avalanche de informações lançadas a respeito do mercado de capitais, das oscilações nas Bolsas, das crises financeiras aqui e acolá, da necessidade de novos empréstimos do FMI ou de outros estabelecimentos, da fuga de capitais, dos juros que sobem ou descem, a impressão final é a de que a instabilidade é a marca deste tempo e que não haverá qualquer modo de se resolver todos os problemas que afligem a humanidade. Entretanto, uma simples notícia, veiculada ontem com destaque por esta Folha, a respeito da previsão da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) sobre a safra agrícola 98/99, mostra como está errada toda esta colocação e, principalmente, que de fato existe solução para todas as dificuldades que os homens enfrentam e esta é simples, fácil e está bem perto. Mercados, bolsas, juros, oscilações, isto tudo é realmente instável. O que é real é a produção, é o que o homem pode tirar da terra, o que ele pode conseguir com o trabalho, é o alimento que acaba com a fome, com a miséria, que efetivamente produz riquezas, que é estável e multiplica o resultado do trabalho.
Conforme a primeira estimativa de safra da Conab, a produção brasileira de grãos pode atingir quase 86 milhões de toneladas, 9,7% maior que a safra passada e igualmente superior à de 94/95, de 81 milhões de toneladas, o último recorde registrado. Chega a ser incrível o conhecimento disto, ainda mais porque os responsáveis por este feito, os verdadeiros e talvez únicos heróis deste País, não são os operadores do mercado de capitais, nem os bem vestidos dirigentes econômicos, nem os aplicadores nas bolsas, mas os esquecidos produtores rurais, raramente lembrados, pouco assistidos, mas que continuam a plantar, a lutar, a trabalhar para garantir o sustento da população brasileira e de boa parte do mundo.
É oportuno lembrar que a Confederação Nacional da Agricultura não partilha desta previsão otimista da Conab, assinalando que dificilmente o País colherá mais de 83 milhões de toneladas na próxima safra, a não ser que as autoridades atendam às reivindicações que o setor apresentou. Vale observar que mesmo o número menor da CNA ainda representa um recorde. Entretanto, é certo que o melhor seria que a Conab estivesse certa. E, na verdade, no cotejo das duas previsões, ressalta que os produtores não descartam a possibilidade de se atingir o total mais elevado. Tudo depende de o governo federal voltar seus olhos e sua vontade para este segmento, que é fundamental para a concretização de qualquer política de crescimento econômico e social que se pretenda implementar.
De qualquer modo, o que é preciso deixar evidente é o papel que a agricultura pode desempenhar caso se queira, de fato, tirar o Brasil da situação instável em que se encontra para encaminhá-lo ao destino de potência que inevitavelmente deve assumir. Se a agricultura produzir 83 milhões de toneladas, ainda assim terá tido um resultado fantástico, resultante apenas do sacrifício e coragem de seus produtores. Entretanto, seria até criminoso não atender aos reclamos dos agricultores, não só para possibilitar que ampliem a produção, mas e principalmente porque é a partir da base sólida oferecida pelo campo que será possível alicerçar a arrancada na luta contra a miséria e o subdesenvolvimento.
Está no campo, como sempre esteve, a redenção deste país continente e de seus milhões de desempregados, famintos e subnutridos. Apoiar a produção não é, apenas, uma questão de política de governo. Constitui, sem qualquer dúvida, a única e real alternativa para se concretizar, neste final de século, o país das aspirações e sonhos dos milhões de brasileiros.





