Editorial - A fome no mundo
A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) alertou, em informe divulgado na semana passada, que o número de pessoas com fome crônica no mundo está aumentando e que a crise financeira da Ásia poderá aumentar ainda mais o sofrimento da população mais pobre. A agência, baseada em Roma e que em 1996 organizou o Fórum Mundial da Alimentação que traçou o objetivo de cortar pela metade a fome no mundo até 2015, afirmou em seu estudo anual que a quantidade de pessoas desnutridas nos países em desenvolvimento passou de 822 milhões, no período 1990-92, para 828 milhões entre os anos de 1994 e 96. A porcentagem média de pessoas mal nutridas em relação à população mundial diminuiu para 19% (de 20%) no mesmo período, mas esta pequena melhora não foi suficiente para compensar o crescimento demográfico.
Entre os fatores apontados como causadores do crescimento da fome no mundo estão os fenômenos naturais e a crise econômica. Segundo o diretor-geral da FAO, Jacques Diouf, a crise financeira que inicialmente afetou o Leste e o Sudeste da Ásia e o fenômeno climático El Ni¤o contribuíram para piorar a situação. Para a FAO, a tempestade financeira ameaça as conquistas econômicas, principalmente a produção de alimentos de muitos países da América Latina e da Ásia.
A América Latina e o Caribe, que obtiveram em 1997 seus melhores resultados econômicos em um quarto de século, apesar dos efeitos desestabilizadores da crise financeira na Ásia, não vão repetir esta performance em 1998, segundo o informe, que destaca que o futuro da região dependerá em grande parte do Brasil, cuja participação na produção regional é decisiva.
Segundo as Nações Unidas, o impacto negativo nas economias nacionais, a questão do emprego e das perspectivas da produção agrícola e do comércio poderiam desembocar em incerteza alimentar para milhões de pessoas. Para toda a região, a FAO prevê que as taxas de crescimento econômico diminuam cerca de 3,3% em 1998.
Mais importantes, sem dúvida, que os números da FAO - que, em sua frieza, não chegam a sensibilizar - são as fotos que têm sido divulgadas, com muita regularidade, de populações famintas inteiras, notadamente na África, morrendo à míngua sem que se vislumbrem esforços conscientes para mudar esta situação. Fatos e fotos deveriam levar a humanidade a refletir sobre este desafio de alimentar toda a população da Terra, que parece insuperável. Quando se analisam os feitos do homem, suas vitórias fantásticas sobre a Natureza, a evolução em praticamente todos os setores, constata-se que é possível vencer a fome no mundo, desde que haja um direcionamento real, um esforço concreto dos governos e dos povos.
O desafio exige uma grande cruzada mundial, um trabalho pleno e filantrópico que leve em conta a situação desesperadora de milhões de pessoas que vivem em condições subumanas. Milhões de famintos não podem continuar a morrer num planeta que poderia alimentar a todos, desde que houvesse disposição e coragem para enfrentar este desafio. Apesar das adversidades climáticas, é possível estimular a produção de alimentos e, o que é, sem dúvida, o principal, levá-los às regiões mais carentes, na África como no Brasil, num esforço que por mais difícil que pareça constitui a única resposta decente que a civilização humana pode dar a tão sério problema.





