A Europa e a América Latina
A Cimeira, conferência de chefes de Estado e de governo de 48 países da América Latina, Caribe e União Européia, realizada no Rio, representou mais um episódio no quadro da complicada luta que as maiores potências econômicas vêm travando no intuito de preservar seus interesses hegemônicos sobre o mundo. Ainda que pareça cínica a observação, é possível perceber quanto é real diante da própria evolução das lutas por controle econômico desenvolvidas no mundo ao longo dos tempos. A Europa, que dominou a cena mundial nos últimos séculos, tendo lançado de modo muito forte o sistema colonialista, perdeu terreno principalmente a partir do final da II Guerra Mundial. Completamente exaurido por dois tremendos conflitos, o chamado Velho Mundo teve de ceder o bastão aos Estados Unidos, principalmente. Esfarelou-se o colonialismo na África e na Ásia, com o surgimento de novas nações, produzindo-se uma situação diferente da que vigia até então, exigindo novas estratégias para enfrentar os novos desafios.
Os Estados Unidos conseguiram se beneficiar muito, em especial em termos econômicos, da era surgida com o fim da II Guerra Mundial. Não apenas se mostraram solidários, revitalizando a Europa, como também plantaram sólidas frentes por todo o mundo, especialmente aquilo que consideravam ‘seu quintal’, a América Latina. Por algumas décadas foram soberanos, mas, o que é quase inevitável, até porque não houve nenhum outro conflito similar aos dois anteriores na Europa, começaram a sofrer pressões. Os próprios europeus foram tentando primeiro se desvencilhar dos tentáculos do Tio Sam, criando inclusive organismos próprios e fechados, para depois tentarem eles também voltar à velha prática, retomando o domínio em outras áreas do mundo.
A nova realidade mundial vigente representa, porém, um obstáculo a propósitos hegemônicos. Os europeus deram o exemplo na luta contra interesses externos, criando entidades continentais. Todavia, a idéia deles serviu de modelo a outros, forjando o surgimento de blocos nos demais continentes. No caso específico da América, antigo quintal norte-americano, o Mercosul surgiu como uma alternativa firme para a formação de um bloco capaz de enfrentar, ainda que com dificuldades, os interesses das grandes potências. Não se trata, agora, de pressionar tais ou quais países, mas de conseguir apoio de grupos que se tornam mais fortes pela união. Os Estados Unidos perceberam isso e não apenas criaram seu próprio bloco regional (unindo-se a Canadá e México), mas também lutam para fomentar o grande grupo americano, efetivamente um forte obstáculo aos propósitos europeus.
A União Européia tem tentado ingressar neste bloco, sendo que a Cimeira representa, sem dúvida, o ponto mais importante nessa aproximação. Para a América Latina e Caribe é interessante esse esforço que ajuda a driblar eventuais pressões norte-americanas. Todavia, é necessário haver uma visão muito clara sobre o que se pretende nesse esboço de entendimento entre Europa e América Latina. Apesar dos discursos solenes, até mesmo de promessas encantadoras, o que se tem é uma realidade ainda complicada. A Europa precisa do apoio latino-americano, mas ainda se mostra algo desdenhosa no contato direto. Quando, como o fez o presidente francês, nega o protecionismo que existe ali em relação à agricultura, mostra uma face que não serve aos propósitos de entendimento, com negociações que atinjam interesses comuns. Não há, apesar dos acordos assinados, a sensação do real desejo de criar uma política cooperativa, sem vantagens unilaterais. É o que falta para que Europa e América Latina possam buscar um destino comum.

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