Editorial - A Educação
As campanhas da Fraternidade, lançadas em 1963 pela Igreja Católica como um chamamento à meditação após as folias de Carnaval, tem enfocado, nestes 35 anos, temas candentes da realidade social brasileira, convidando seus fiéis e toda a sociedade a um importante aprofundamento sobre problemas que merecem o estudo, a análise e o trabalho de todos. A educação, tema escolhido para a Campanha da Fraternidade este ano, segue esta linha, chamando a atenção para um dos nossos mais sérios desafios.
A educação no Brasil padece de males que podem ser detectados desde o nascimento da nação, há 498 anos. Durante séculos foi um benefício reservado quase exclusivamente às elites, salvo em algumas capitais onde o poder central construiu colégios que se tornaram referências nacionais. Naturalmente, não poderiam ser em número infinito nem poderiam ter vagas ilimitadas. Nesses poucos colégios, a elite sempre ficou com o maior número de vagas.
O ensino particular foi ainda mais elitizado em nossa História, pelo simples fato de que poucas famílias - mais no passado e menos no presente - podiam pagar. O sistema afunilou-se de tal maneira que se tornou exceção a classe média baixa estudar em colégios pagos. Já em meados deste século eles só eram procurados pelas camadas médias e altas da classe média e pelos ricos. A baixa classe média e os pobres iam para as escolas públicas, já então numerosas e a maioria de bom nível.
A Igreja Católica foi, por sinal, uma das grandes incentivadoras da escola particular, aliando razões religiosas a objetivos educacionais presentes em diversas ordens, dos jesuítas aos maristas, salesianos, beneditinos, vicentinas, claretianas etc. Todos estão entre os primeiros educadores de nosso país, muito antes do ensino estatal. Poucas, no entanto, conseguiram evitar e elitização total de seu corpo de alunos, embora não faltem tentativas louváveis e generosas de levar o ensino - a Educação - às faixas mais pobres da população.
O processo de elitização do ensino no Brasil resultou num grande número de analfabetos no País. No entanto, a elitização não deve ser atribuída ao ensino pago nem à má qualidade do ensino público dos últimos 30 anos, e nem mesmo ao restrito número de boas escolas públicas que continuamos a ter nesse período. A elitização é uma consequência da grave crise econômica e social em que vivemos, notadamente a partir da década de 60. A crise e a miséria são a causa primeira dos 22 milhões de analfabetos existentes hoje e que já foram 30 milhões há uma década. Algo melhorou no País, e isto deve ser atribuído ao bom ensino público em alguns dos Estados mais importantes da Federação. No entanto, o número ainda é elevadíssimo.
Há muito que fazer. Temos uma educação deficiente, incompleta e, em muitos casos, completamente fora da realidade. Ao lado dos milhões de analfabetos, podem ser colocados outro tanto de semi-alfabetizados e um número imenso de pessoas que, embora tenham sido alfabetizadas, foram obrigadas logo cedo a entrar no mercado de trabalho e abandonar os estudos. São deficientes de um tipo que não está catalogado e se pode chamar de deficiência intelectual. O número de analfabetos, semi-alfabetizados e deficientes intelectuais do Brasil saltaria, seguramente, para o triplo dos 22 milhões classificados como analfabetos.
A reflexão que a Campanha da Fraternidade sugere é de tal modo importante que deve envolver todos os brasileiros. O problema não é somente de governo, como alguns críticos comodistas gostam de dizer. O fato de a Constituição dizer que educação é obrigação do Estado não significa que se deva deixar aos governos todas as responsabilidades. Na verdade, é uma questão que afeta a todos e, portanto, deve ser encarada de modo mais amplo, a partir do debate até o estabelecimento de metas e objetivos a fim de se produzir as condições efetivas de Educação para todos.
Desafio que foi sendo deixado de lado por séculos, este pode ser o momento de enfrentá-lo de modo definitivo. O Ministério da Educação também está no ar com uma campanha publicitária excelente e um consistente programa de reformulação do ensino de 1º e 2º graus. Às famílias de qualquer crença, ricas, médias e pobres, cabe também, pela reflexão seguida da ação, uma importante tarefa na construção de um novo ensino e uma nova Educação: levar suas crianças para a escola e manter todas lá, incentivadas e interessadas, até o fim.





