Editorial - A diplomacia de Clinton
Um dos mais importantes jornais da Argentina sintetizou, com total acuidade, a passagem do presidente norte-americano Bill Clinton pelo país vizinho: ele falou o que os argentinos queriam ouvir, e nesta frase se pode incluir os brasileiros. A isto se chama diplomacia. No caso específico, era algo mais que necessário, pois às vésperas da primeira viagem do presidente norte-americano ao sul do continente vieram a público documentos e pedidos quanto à segurança pessoal do visitante que chocaram e ofenderam os futuros hóspedes, principalmente o Brasil. Assim, com ou sem vocação, o sr. Clinton teria de agir diplomaticamente.
E o presidente norte-americano saiu-se bem. Conseguiu reverter o clima de confronto que se criou, mais pelas gafes que precederam sua chegada do que pelos problemas que existem nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos. Tanto no Brasil quanto na Argentina o presidente adotou um discurso não só comedido, mas amistoso e conciliatório. Se, como se esperava, pretendia torpedear o Mercosul em benefício do Alca, que estabelece uma área de livre comércio em todo o continente, o clima que encontrou levou-o a mudar o sentido de sua retórica. Assim, o Mercosul, em vez de um problema para os EUA, virou um direito legítimo das nações do Cone Sul e pode ser um importante instrumento para a construção de um mercado muito mais amplo.
O presidente Bill Clinton não é um cidadão do mundo, como o papa João Paulo II, para quem não há fronteiras. É o presidente de um país com grandes interesses comerciais e um grave e crônico problema em sua balança comercial, deficitária há décadas. O equilíbrio comercial é condição básica para a estabilidade da economia mundial, e as crises que volta e meia ocorrem nas bolsas de todo o mundo, por exemplo, têm como causa primeira os desequilíbrios nas trocas internacionais. O Alca interessa aos Estados Unidos para fazer o que todo mundo rico quer: vender. A diplomacia pessoal de Clinton consistiu em reconhecer que o Brasil e o Mercosul têm o direito de querer a mesma coisa.
Bem ilustrativo desta mudança de espírito foi o último discurso de Clinton na Argentina, defendendo a liberdade total para os negócios via Internet, sem a mão forte dos governos, a entravar o processo. Delicadamente, o presidente Carlos Menem, depois de concordar com a idéia, lembrou que as questões desse tipo devem ser tratadas em conjunto com seus parceiros continentais, especialmente o Brasil.
De tudo, afinal, ficou somente um escorregão que, intencional ou não, pode mexer com os brios e ciúmes latinos. Clinton anunciou a intenção de tornar a Argentina parceira extra-Otan dos Estados Unidos. Isto significa, em princípio, uma ligação militar maior com o país vizinho ao Brasil. Em outras palavras, a Argentina pode ficar militarmente mais forte do que qualquer outro país latino-americano. Clinton nega que tenha havido segundas intenções no anúncio, mas ele pode deflagrar uma corrida armamentista no continente, não para a guerra, mas para ostentar poderio bélico. Na sequência, a divergência se instalaria entre os vizinhos. Nada mau para quem disse que não quer dividir ninguém!





