Dificilmente o general Augusto Pinochet, ex-ditador chileno, sofrerá algum tipo de punição mais séria como consequência do processo movido pela Justiça espanhola e que levou à sua detenção em Londres. No atual momento, Pinochet não sofre nenhum tipo de restrição pessoal, até porque está internado em uma clínica e não teria condições de sair de lá. E o que a Justiça britânica decidiu foi que ele ficará retido até prestar esclarecimentos requeridos por um juiz espanhol, que o acusa de crimes cometidos no período em que era ditador contra cidadãos de outros países. A possibilidade de Pinochet vir a ser interrogado a respeito é reduzida. Alguma coisa mais séria, como sua extradição, julgamento ou condenação parece até utópico, embora, sem dúvida, este fosse o final que poderia satisfazer a consciência mundial.
A reação diante da atitude da Justiça britânica, entretanto, reduz as esperanças de que algo mais grave ocorra com o sr. Pinochet. Chega a ser incrível, mas até mesmo alguns setores antagônicos à ditadura chilena contestam a ação da Justiça espanhola e a decisão de sua similar britânica. Não faltaram - incluindo o presidente Frei, do Chile, fundamentalmente inimigo de Pinochet -, os que discutem a posição ‘moral’ espanhola no que diz respeito a ações ditatoriais, lembrando que os crimes cometidos nos anos de Franco não foram também punidos ou sequer julgados. Além dos direitistas, que contestam violentamente a medida, muitos chamados esquerdistas e até humanistas preferem criticar Espanha e Inglaterra, lembrando seus antigos (e possivelmente seculares) crimes para considerar que nenhum dos dois países tem postura que apóie a intenção de levar um tirano latino-americano a julgamento.
Ora, sob qualquer análise que se faça não há país que tenha condições de passar por este tipo de crivo. Todos, hoje ou no passado, em maior ou menor intensidade, promoveram ou aceitaram atrocidades. Todavia, não é este o ponto. A ação contra o tirano Augusto Pinochet, movida em outro país que não aquele que infelicitou, por crimes cometidos contra estrangeiros, é mais que legítima. O manto da impunidade que se arrogou (assim como todos os outros ditadores) não deveria torná-lo imune em outros lugares. O lamentável não é que a Justiça espanhola o tente apanhar agora, mas que outros, como ele, tenham sempre se beneficiado de uma elástica legislação internacional que acolhia e abrigava, com todo o luxo, os tiranos escorraçados por seus povos, após anos de crimes e saques.
Se, como alegam as autoridades chilenas, Pinochet foi anistiado ou perdoado em seu país, isto significa que lá ele é livre. O mesmo em relação aos ditadores argentinos, igualmente alvos da Justiça espanhola. Uma vez que eles tiveram o cuidado de, antes de perder o comando, garantir imunidade interna, que fiquem lá, convivendo com os que torturaram e com os parentes dos que mataram. Sejam seus países uma espécie de exílio permanente, ficando impedidos de sair pelo resto do mundo, sob pena de sofrer, então, pelo menos a lícita indignação por seus atos que uma justiça manipulada pode perdoar, mas que a consciência humana, efetivamente, não aceita.
Pinochet não é o único, mas bem poderia ser o primeiro a sofrer o repúdio moral de uma humanidade que começa a se tornar mais consciente de seus direitos. Nesta era de globalização, bem que a Justiça também poderia se tornar global, punindo tiranos como Pinochet e tantos outros como ele.

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