A leitura do noticiário e dos comentários relativos à situação do mundo hoje parece indicar que existem duas situações: há os países que estão em crise e os que vão entrar em crise. A Rússia está afundando, em meio a um maremoto de incompetência, corrupção e abusos; os países da Ásia revelam suas imensas fraquezas, após um aparente período de prosperidade; as Bolsas caem por toda parte e os analistas revelam: o mundo, ao menos sob o ponto de vista da economia, está afundando. Quem não está em crise, pode esperar: mais dia, menos dia, as coisas vão ficar terríveis. Conforme a ótica dos futurólogos apocalípticos, nem mesmo potências como os Estados Unidos estão livres disto. A crise vai pegar todo mundo e as coisas não mais serão como antes.
Um dos aspectos bons da futurologia é o fato de que ninguém costuma cobrar dos profetas da atualidade os erros nas suas previsões. Quando se equivocam sobre as perspectivas negativas (e raramente há alguém fazendo previsão positiva) e são colocados diante da falha, sempre encontram desculpas. A principal delas é de que ‘‘houve mudança no rumo das coisas’’ e por isto as tragédias antecipadas não aconteceram. Felizmente, ponderável parcela das previsões mais sombrias, não só em relação ao Brasil, mas a quase todo o mundo, não se realizou. As crises continuaram a existir, e é certo que raramente se viveu uma época tão conturbada, com tantas mudanças. Mas o mundo não acabou, nem mesmo se produziu de novo uma recessão tão tenebrosa quanto a de 1929, quando, de fato, houve um verdadeiro pandemônio econômico a abalar países por todo o planeta. Aparentemente, os seguidores da tese do caos parecem esperar até com ansiedade a repetição do ‘crack de 29’, ou algo ainda pior.
O que falta, porém, a toda esta análise negativa é uma visão mais abrangente da realidade mundial. Falta perceber que nunca, em toda a História, o mundo mudou tanto quanto nos últimos 50 anos. Jamais também houve tantos habitantes sobre a face da Terra. E embora este possa parecer um dado complexo a se considerar, nestes últimos 50 anos não houve guerras tão terríveis quanto as que vinham ocorrendo. Com o domínio pelo homem da energia atômica, não poucas vezes houve o temor de que toda a humanidade poderia ser destruída numa eventual Terceira Guerra Mundial. Mesmo este perigo, porém, parece afastado hoje, com o fim da guerra fria. As bombas ainda existem e, se deflagradas, poderiam destruir o planeta. Todavia, a impressão agora é a de que a destruição não virá das armas, mas da economia.
Ocorre que esta é também uma visão distorcida. As mudanças que estão acontecendo representam principalmente uma realidade diferente da que foi vivenciada pelo homem desde que tomou consciência de si próprio e dominou o planeta. O que há, na verdade, é uma grande, profunda e insuperável ‘crise’ provocada pelas mudanças em todos os setores da economia, pelo aumento populacional da Terra, pelas alterações da tecnologia, pela elevação no nível de vida dos povos e, naturalmente, pelo crescente reclamo dos seres humanos que querem melhorar suas próprias perspectivas.
Esta ‘crise’ é real, mundial, inevitável. Mas não é, por si, geradora de desgraças incontroláveis. A situação impõe a necessidade de que o ser humano - individual e coletivamente - acompanhe as mudanças e aja com bom senso. Quanto aos governos, não podem perder de vista a importância de se reparar as desigualdades sociais. Afinal, o que presenciamos é uma grande revolução que resultará em fortes transformações globais. O desafio é conviver com elas e usá-las em benefício do progresso comum.

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