Editorial - A crise e as eleições
A crise econômica que aflige alguns países do mundo e ameaça atingir outros representa, sem dúvida, a grande preocupação para o governo brasileiro, principalmente devido ao momento eleitoral que o País atravessa. As pesquisas relativas à intenção de votos continuam a apresentar um quadro aparentemente confortável para o atual presidente em sua luta pela reeleição. Hoje, segundo dados bem confiáveis, Fernando Henrique Cardoso não apenas ganharia as eleições mas, como aconteceu há quatro anos, sequer precisaria de um segundo turno. E é certo que a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV, iniciada há poucos dias, dificilmente alterará este quadro. Em verdade, só uma grande reviravolta, um eventual maremoto econômico-político pode criar uma situação diferente, pondo em perigo a quase certa reeleição de FHC.
Não por outro motivo, o prestigioso jornal Financial Times, um dos mais respeitados do mundo na área de finanças, assinalou na edição de segunda-feira que o Brasil está tentando ganhar tempo diante do agravamento da crise internacional. O Brasil precisa das seis semanas que faltam para as eleições, diz o artigo, informando que se for reeleito, o presidente FHC deve conseguir lidar com o elevado déficit orçamentário e permitir uma queda nos juros, o que reduzirá ainda mais o déficit, restabelecendo a confiança e a estabilidade. Apesar de insistir nas dificuldades brasileiras, o Financial Times aposta que com a plena intenção de se engajar em reformas sérias, o Brasil deve sobreviver, mesmo com os riscos inerentes à estratégia de ganhar tempo. O jornal diz ainda que as próximas semanas devem ser tensas, mas considera difícil um ataque vindo de fora contra o real, visto que a moeda brasileira não é totalmente conversível. Sobretudo, lembra o Financial Times, devido às reservas de US$ 70 bilhões, que funcionam como um bom colchão contra uma saída limitada de capital.
A análise externa da situação, na verdade, não difere da interna. A crise existe, representa um perigo para muitas economias no mundo e o Brasil, embora tendo um bom colchão, vive um momento complicado. Um eventual pacote, similar ao de novembro do ano passado, pode produzir efeito indesejado sobre a campanha eleitoral. A não-adoção de medidas concretas eventualmente necessárias talvez fragilize mais a economia interna. A possibilidade de um arrocho subsequente às eleições também precisa ser descartada, até para não ser usada como arma pela oposição. E embora haja toda a impressão de uma firme vantagem de FHC com vistas às eleições, é imponderável o efeito que pode ter sobre o quadro atual uma guinada política que possa criar dificuldades econômicas ao País.
O citado Financial Times voltou a comentar o Brasil em sua edição de quinta-feira. O economista-chefe da Merrill Lynch para a América Latina, Francis Freisinger, reafirmou que as altas reservas e o forte fluxo de investimento direto estrangeiro dão ao País um importante amortecedor contra a crise, mas ele próprio entende que isto pode não ser suficiente. O periódico cita estimativas de analistas, segundo as quais a necessidade de financiamento (déficit em conta corrente mais amortização da dívida) em 1999 será de US$ 55 bilhões. Valor que se aproxima muito das reservas existentes. De qualquer modo, como se trata de uma previsão das necessidades para o próximo ano, isto indica que o governo deve ter o tempo que precisa para sair-se praticamente ileso da crise. Pelo menos, poderá chegar às eleições de 4 de outubro sem precisar adotar medidas duras ou amargas, que poderiam ameaçar o projeto de reeleição. O problema é o depois. As eleições acontecem em pouco mais de um mês, mas o Projeto Brasil deve levar em conta um futuro de longo prazo.





