Editorial - A crise das Bolsas
Quando o bloco soviético se esboroou, o Muro de Berlim caiu e a guerra fria terminou, um suspiro de alívio correu o mundo. O medo de uma hecatombe nuclear, real nas décadas de 50 e 60 e declinante nos anos 80, era definitivamente afastado e surgia a esperança de uma nova era de paz e crescimento econômico, pela integração dos mercados da Europa Central e da China. Passados poucos anos, enquanto o panorama da miséria não se mostra muito diferente, surge uma nova ameaça às instituições e, por consequência, à estabilidade da economia mundial. O que soviéticos e norte-americanos não fizeram com as poderosas armas que produziram durante a guerra fria, grupos de especuladores ameaçam fazer com sua ganância por lucros a qualquer preço.
O forte abalo que os principais centros econômicos do mundo estão enfrentando esta semana, numa onda que começou na Ásia há mais tempo, ameaça derrubar as economias em todo o planeta. A recuperação da Bolsa de Nova York ontem, com reflexos positivos no Brasil, não significa que se pôs um dique na onda especulativa que vem da Ásia. Tanto que a Bolsa de Hong Kong levou outro grande tombo, ontem mesmo.
A batalha entre os especuladores que pretendem derrubar a moeda de Hong Kong e o governo da ex-colônia britânica, que faz o impossível para evitar isto, é a origem do vendaval que varre as Bolsas pela Ásia, Europa e Américas. O efeito dominó parece impossível de deter. Até por causa do fuso horário, quando Hong Kong luta desesperadamente, o mundo está dormindo. Mas quando a Europa acorda, recebe em cheio o refluxo da Ásia. Seguem-se, pela ordem, as Américas, Nova York à frente e Brasil e Argentina por último.
Para o cidadão comum, a situação é incompreensível. Afinal, ações negociadas em Bolsas são parte do patrimônio das empresas e ninguém pode conceber que elas possam valer muito hoje e amanhã afundar, sem qualquer motivo real. Ocorre que, apesar dos regulamentos e de sistemas de controle sofisticados - como o circuit break, inexistente no Brasil e que pára o pregão quando há fortes oscilações -, as Bolsas ainda são muito vulneráveis à especulação, que as transforma em casas de jogo. E a certa altura do campeonato, no pico de alta ou no pico de baixa, o valor das empresas não tem mais nada a ver com as ações cotadas ali.
Os grandes especuladores, manipulando bilhões de dólares e aproveitando-se do avanço tecnológico que permite ao dinheiro viajar pelo mundo na rapidez da Internet, têm poder suficiente para desorganizar momentaneamente as Bolsas. Mas não são exatamente os especuladores em ações que estão fazendo o estrago desta vez. São grandes grupos econômicos que, na posição de tomadores de grandes volumes de empréstimos em dólar de Hong Kong, tentam forçar o governo local a desvalorizar a moeda para, com isso, reduzirem o valor de suas dívidas e ganhar muito dinheiro com isso.
O governo resiste a eles levantando fantasticamente as taxas de juros, que se tornam extraordinariamente mais atrativas do que as ações. A bolsa não aguenta e desaba. No meio da balbúrdia, outros grandes grupos que estão investindo em bolsas de países emergentes como o Brasil, onde só neste ano a valorização média das ações é de 70%, passam de compradores e vendedores frenéticos, seja para cobrir perdas nas bolsas do Primeiro Mundo, ou para investir na espetacular alta de juros da Ásia.
A especulação na Ásia é um fenômeno recente que só não produziu catástrofes ainda maiores porque os governos estão melhor aparelhados do que há 70 anos, quando o capitalismo norte-americano quebrou pela primeira vez. Também contribuiu para evitar o caos a estrutura de organismos como o FMI e o Banco Mundial, que conseguiram intervir, até certo ponto. Por isso há, no mundo financeiro, a convicção de que o pior poderá ser evitado, isto é, não será a especulação que fará, hoje, o papel das bombas atômicas que assustavam o mundo há uma década.
Mas os organismos governamentais precisam seguir atentos para intervir a fim de prevenir o pior. O Brasil, como outros países, pode sofrer as consequências da queda-de-braço em Hong Kong. A situação interna seria muito melhor se o déficit público fosse menor - pelo menos está decrescente -, se as principais reformas estruturais já estivessem negociadas e tramitando para votação. Estes seriam, ao lado das privatizações, que finalmente se reacenderam, os melhores antídotos contra o veneno da especulação.





