Editorial - A corrupção e a política
O escândalo que envolve a Prefeitura de Londrina, atingindo também tanto o Executivo estadual quanto o Legislativo, com respingos até sobre membros do Judiciário, está longe de terminar. A impressão segundo a qual as revelações e a ação proposta pelo Ministério Público representam apenas o que se costuma chamar de ponta do iceberg se robustece a cada passo, de tal modo que é possível que muito mais sujeira e podridão venham a ser expostos nos próximos meses. O mais complicado ainda é perceber que além do propósito elevado do Ministério Público e de entidades que desejam, efetivamente, desvendar todos os esquemas de corrupção e identificar e punir os responsáveis, há também o jogo político dos que procuram tirar dividendos, sem a preocupação de buscar apenas a verdade.
Sob certo aspecto, é uma situação compreensível. Londrina é a terceira maior cidade do Sul do País e a luta política pelo seu controle pode ser considerada até natural. Entretanto, o fundamental neste momento deveria ser a elucidação de toda a trama criminosa que enlameia a administração e acaba por comprometer o próprio nome da cidade. Com efeito, Londrina que foi durante décadas um símbolo de trabalho, uma verdadeira mística como o novo Eldorado, enfrenta agora uma outra situação. As revelações em torno dos esquemas de corrupção atingem dimensão nacional e já há quem faça comparações entre a cidade paranaense e a Capital paulista, igualmente mergulhada no que se convencionou chamar mar de lama, o que não é nada desejável.
A exploração política, principalmente, complica a investigação que, pela própria exigência dos preceitos legais, é lenta. Ao lado dos fatos comprovados e das denúncias concretas, como as que deram base à ação já iniciada pelo MP, há o jogo menos limpo dos que querem se aproveitar do clima e usam argumentos excusos a fim de tumultuar. Neste quadro, a tarefa de quem se propõe (e tem como finalidade) revelar os fatos, como a imprensa, enfrenta ainda maiores obstáculos, necessitando separar o joio do trigo, difundir os fatos e evitar servir de instrumento a interesses menores.
A situação em si já é repugnante. A revelação relativa a licitações fraudulentas, ao desvio de recursos para contas pessoais de pessoas colocadas nas mais elevadas funções, a utilização de dinheiro público para campanhas eleitorais, a possibilidade de enriquecimento ilícito que se percebe diante de algumas investigações, tudo isto é, para usar uma expressão do presidente da República, de molde a causar nojo (muito embora o próprio FHC, como Pilatos, lave as mãos diante da corrupção). Por outro lado, a sociedade tem não apenas o direito de ser bem informada sobre tudo mas, também, de ver os responsáveis adequadamente punidos, em nome da decência, da moralidade, da ética, questões que são exigidas na vida pública.
O interesse da coletividade, vale adiantar, se destaca diante de todo este quadro. E o que norteia os que têm a missão de informar, como este jornal, é precisamente o compromisso que faz parte de sua própria História e que tem sido o fator fundamental na cobertura e divulgação dos fatos desde o início das investigações. A corrupção local, levada por vezes a um denuncismo histérico com o objetivo de confundir a opinião pública, é sempre mais assustadora do que a que se observa em outros pontos, inclusive na esfera federal. Também por isto, é relatada com equilíbrio e isenção, com a preocupação maior para que não haja o uso inadequado e pernicioso deste trabalho. É tarefa complexa a que, porém, não se pode fugir, mesmo porque o povo, a quem a imprensa serve e os políticos deviam servir, tem o direito de saber e exige a punição exemplar de todos quantos abusaram de seus postos e roubaram o sagrado dinheiro público .





