Editorial - A Copa e as eleições
Regimes totalitários, de direita ou de esquerda, buscam, de todos os modos, tirar proveito de qualquer fato positivo que ocorra e que, de algum modo, sirva para mostrar superioridade. Não foi diferente no Brasil quando, em 1970, a ditadura militar capitalizou a conquista do tricampeonato mundial de futebol. Basta lembrar o que faziam os regimes comunistas da Europa Oriental, que não só exploravam os bons resultados como investiam muito para criar superatletas, capazes de mostrar ao mundo a supremacia das doutrinas esquerdistas. Do mesmo modo, o regime nazista fez o impossível para transformar as Olimpíadas de Berlim, em 1936, em um sinal da grande superioridade do sistema implantado sob os auspícios de Adolf Hitler. E se, naquela ocasião, um negro norte-americano, Jesse Owens, acabou estragando a festa nazista, isto não mudou a realidade da manipulação por um regime autoritário visando explorar o esporte em benefício de suas torpes idéias.
A nova realidade mundial também atingiu o esporte. O nazismo, com seu ideário de supremacia racial, afundou há mais de 50 anos. O sistema comunista soviético também se foi. O esporte prevalece e ganha terreno no seu papel mais importante, o de unir os povos através da disputa civilizada. E as vitórias ou derrotas não servem para mostrar superioridade de uma raça ou de um povo, mas consubstanciam apenas o prêmio por um desempenho melhor em dado momento. Naturalmente, mesmo governos democráticos procuram tirar algum proveito do sucesso, como tem sido percebido pelo esforço do presidente francês Jacques Chirac em se associar aos jogadores de futebol que ganharam a Copa. Mas é certo que na França democrática e com uma cultura milenar, como no Brasil de apenas 500 anos, o aproveitamento político do sucesso, como o eventual reflexo negativo pela derrota, não é tão grande quanto se pode supor.
Dizia-se que o governo Fernando Henrique Cardoso seria o grande beneficiário de uma eventual vitória brasileira e que, com o penta, poderia se considerar praticamente vitorioso em sua campanha pela reeleição. Se isto fosse realidade, a recíproca também seria verdadeira, isto é, a derrota implicaria em uma situação danosa para a candidatura do presidente. Todavia, a percepção dos fatos, alguns dias apenas após a grande decepção que foi a derrota da seleção de futebol na França, indica que nada disto deve acontecer. A população ficou entristecida (e até chocada) com a derrota, a economia efetivamente sofreu um impacto direto em consequência do resultado, mas politicamente não se deve esperar que a candidatura do presidente à reeleição sofra qualquer impacto, positivo ou negativo.
Na verdade, o inteligente gesto do próprio presidente, que ontem recebeu a delegação que perdeu, foi um golpe de mestre. Quando, nos dias que precederam o jogo final, foi anunciado que os jogadores, técnicos e dirigentes passariam por Brasília na volta ao país, para uma recepção oficial, não foram poucos os que viram nisto exatamente a tentativa de explorar o título, como está fazendo Jacques Chirac. Mas o time foi derrotado e a idéia era a de que o governo não iria querer confraternizar com perdedores. Afinal, também em política há superstições. Entretanto, ao manter a recepção, o sr. Fernando Henrique Cardoso deu outra dimensão a tudo. Não mais era o político querendo explorar os vencedores, mas o governante que queria agradecer o esforço dos atletas. Independente disto, dificilmente haveria perda eleitoral com a derrota. Com este gesto, o presidente ganhou, com uma atitude de verdadeiro estadista.





