Editorial - A bomba do milênio
A temida, e erroneamente chamada bomba do milênio, pode começar a fazer seus primeiros efeitos já a partir desta segunda-feira. O erro no nome é devido ao fato de que a eclosão do problema não acontece na virada do milênio (ou seja, no primeiro dia de 2001), mas quando terminar este ano de 1999, na entrada do ano 2000. Também por isto é que o problema começa agora.
Esta bomba tem origens triviais. Nos dias iniciais da computação, os programadores pouparam o que então era um espaço precioso abreviando os anos para seus últimos dois dígitos. Os programadores sabiam que isso iria causar problemas quando chegasse o ano 2 mil porque os computadores não seriam capazes de entender o 00 daquele ano. Mas eles presumiram que a tecnologia estava evoluindo tão rápido que este problema seria resolvido em tempo hábil. Eles estavam errados - e agora o medo é que sistemas de dados antigos que carregam a bomba do milênio possam espalhar desastre por todo o mundo em todos os setores.
Conforme 1999 progredir, datas antecipadas de propósito devem fornecer pequenas prévias do caos que pode começar quando os relógios baterem meia-noite no dia 31 de dezembro de 1999. A primeira delas foi precisamente o dia primeiro de janeiro de 1999. Programas usados em alguns sistemas contábeis operam um ano inteiro na frente uma vez que empregam datas renovadas para prêmios de seguros e empréstimos bancários - e podem quebrar quando alcançarem além do dia primeiro de janeiro de 2000. O efeito disto, naturalmente, pode ser percebido já na segunda-feira, primeiro dia útil do ano.
Este problema vem sendo antecipado há algum tempo, de tal modo que muitos países já estão se preparando para enfrentar e vencer o desafio. De acordo com o Grupo Gartner, uma consultoria de informação tecnológica, os Estados Unidos estão melhor preparados, seguidos pelo Canadá, Austrália, África do Sul, Israel e Grã-Bretanha. Especialistas dizem que os países mais vulneráveis são o Japão, França, Rússia e Brasil. Pior é que os problemas do Brasil podem afetar os seus vizinhos no Continente.
Algumas falhas de sistemas vão começar a ocorrer agora. E isto, segundo os especialistas, pode ser uma bênção disfarçada. Os problemas que se esperam irão envolver sistemas contábeis, de planejamento e de orçamento mais do que sistemas operacionais, que executam negócios do dia-a-dia. A forma como os técnicos vão lidar com este desafio dará mais experiência para que se possa resolver os problemas seguramente mais amplos que devem surgir na virada deste ano. Este desafio, ademais, talvez sirva para um despertar pleno sobre a vital necessidade deste final de milênio para uma imensa transformação nas relações humanas buscando enfrentar melhor e com mais competência os problemas que o mundo enfrenta. Tem havido um equívoco imenso, no Brasil como em muitos países, que é o de se tentar resolver os grandes e diferentes desafios deste tempo com soluções (e paliativos) antigos.
A realidade imposta por este problema provocado pelos computadores pode, sem dúvida, produzir finalmente a grande revolução de mentalidades que há muito se reclama. Para superar os desafios de um mundo com 6 bilhões de habitantes e uma economia globalizada há a necessidade de novas alternativas, de soluções criativas. A bomba do milênio pode ser o enigma vital para o homem nesta virada da história. O modo como resolvê-lo indicará se é capaz de solucionar os demais, abrindo caminho para que, de fato, o novo milênio traga prosperidade e progresso para a humanidade.





