Editorial - A ameaça dos remédios
A denúncia sobre a existência de remédios falsos, comercializados largamente e usados inclusive em hospitais públicos, que parecia apenas mais uma questão de abuso localizado, acabou se convertendo num verdadeiro maremoto na medida em que a Vigilância Sanitária começou a agir. A lista dos medicamentos falsificados aumenta a cada dia, ao mesmo tempo em que laboratórios são fechados e distribuidoras lacradas em vários pontos do País. E como a ação não atingiu ainda todos os Estados, o temor é de que a questão atinja um nível verdadeiramente inacreditável, a deixar claro outro terrível problema da saúde pública.
O Brasil é um país doente. As filas nos hospitais públicos revelam bem este quadro. A miséria, sem dúvida, tem muito a ver com isto. Pessoas desnutridas geram filhos fracos. A falta de comida, principalmente, produz uma situação de risco potencial. Os pobres e doentes formam multidões diante dos postos de saúde e hospitais, sofrendo com o descaso, a falta de recursos e, sabe-se agora, tendo seus males agravados pela existência (e uso) de remédios falsificados, que não apenas não curam, mas, em alguns casos, pioram a situação dos doentes e apressam sua morte.
A ação das autoridades é vital, sem dúvida. O que preocupa, porém, é perceber o tamanho do problema. A impressão que se tem é a de que toda a indústria de medicamentos parece estar contaminada (sem trocadilhos). O cidadão se vê apavorado, sem ter como se prevenir em uma situação que foge totalmente ao seu controle. Afinal, se não é possível sequer confiar no remédio que se compra (ou se ganha nos postos de saúde e até em consultórios médicos), e se o produto vai mesmo curar a doença, então não existe qualquer forma de defesa legítima para o consumidor-doente.
Ao assumir o Ministério da Saúde, o sr. José Serra deparou com esta questão e se mostrou revoltado, assinalando até que, em seu entender, a falsificação de remédios deveria figurar entre os crimes hediondos, o que ainda não ocorreu, por razões inexplicadas. Enquanto isto, as investigações revelam que as primeiras denúncias, que tanta ira provocaram ao ministro, poderiam ser comparadas à ponta do iceberg. Não há, pelo visto, um crime ou criminoso apenas envolvido no assunto, mas a impressão é a de que todo este assunto envolvendo medicamentos está tão contaminado que se exige ação muito mais ampla do que a atual.
Não há dúvidas, ademais, sobre a vital importância de se aprofundar o assunto até o fim, não apenas por um princípio de justiça, que reclama punição aos falsificadores de remédios, mas para proteger a sociedade em geral que, neste momento, se sente refém dos criminosos, sem saber o que fazer ou a quem apelar. Todo o sistema de saúde acaba envolvido, inclusive porque pouco adianta a alguém conseguir uma demorada consulta médica, acompanhada de uma receita, se existe o perigo de o remédio comprado (ou ganho) não ser aquilo que se necessita. Se antigamente era uma piada dizer que tomar remédio poderia ser perigoso, hoje esta é uma realidade apavorante.
Salta aos olhos que os esforços até agora desenvolvidos pelas autoridades do setor ainda são insuficientes. Pelo volume das denúncias, pelas novas descobertas mas, principalmente, pela importância do assunto, a sociedade exige mais, tem o direito de querer que não só a União, mas Estados e municípios se mobilizem nesta luta para garantir que, pelo menos, o Brasil doente não morra, como dizia um soneto de Bocage, da cura.





