Editorial - A ameaça do deserto
Bilhões e bilhões de dólares de prejuízo ao ano, US$ 200 bilhões em 20 anos para combatê-la: a desertificação é decididamente um problema sério, cuja causa são mais os erros humanos que os caprichos da natureza. As perdas atribuídas ao enfraquecimento do solo, uma das principais causas da pobreza nas regiões mais secas - avaliadas em US$ 45 bilhões anuais pelas Nações Unidas -, foram destaque na pauta da Segunda Conferência Mundial contra a Desertificação, que se realizou em Dacar, no Senegal. Estes prejuízos representam US$ 9 bilhões ao ano para a África, US$ 21 bilhões para a Ásia, US$ 5 bilhões para a América do Norte, US$ 9 bilhões para a Austrália e para a América do Sul e US$ 1 bilhão para a Europa meridional. Segundo a ONU, o combate mundial ao avanço do deserto custou US$ 10 bilhões ao ano durante 20 anos, ou seja, um total de US$ 200 bilhões. Na reunião realizada em Roma, em 1997, os especialistas estimaram em US$ 1 bilhão ao ano os fundos necessários apenas para realizar ações concretas nas regiões envolvidas.
Todos estes números demonstram que esta poderia ser a mais cara de todas as Convenções da ONU dedicadas à proteção do meio ambiente. Mas nada permite prever que o financiamento esteja à altura da gravidade da questão, visto que os países mais ricos não se sentem verdadeiramente envolvidos na questão. Além do mais, o campo de aplicação desta Convenção se sobrepõe em certa medida aos outros acordos, como o da Biodiversidade e o das Mudanças Climáticas. Atualmente, o Fundo para o Meio Ambiente Mundial dispõe de um orçamento de US$ 2,75 bilhões para proteger a biodiversidade e lutar contra as mudanças climáticas. Este só pode dedicar o dinheiro ao problema da desertificação se existir relação com a biodiversidade e com o aquecimento do planeta. O Fundo se mostra disposto a fazê-lo com estas condições.
O Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida) confirmou em Dacar sua decisão de entregar US$ 1 milhão ao mecanismo mundial da Convenção, instrumento financeiro que deve reunir os fundos necessários para lutar contra a desertificação. O Fida decidiu ainda dedicar pelo menos 40% de sua ajuda às regiões que sofrem com o problema. Em Dacar, várias organizações internacionais lembraram que já financiam projetos de luta contra a degradação dos solos, entre elas o próprio Fida e o Banco Mundial. Por seu turno, o Banco Mundial recordou que sua política é ajudar os países que têm uma estratégia verde e que está disposto a contribuir com o mecanismo mundial da Convenção.
Naturalmente, há uma inter-relação com os problemas que envolvem o meio ambiente. A desertificação constitui um desafio tão grande quanto o da preservação ambiental ou o efeito estufa. O que falta, sem dúvida, é uma conscientização mais plena sobre a questão como um todo e, principalmente, a realização de um trabalho global no sentido de reverter a realidade da deterioração do ambiente na Terra. A visão parcial sobre o assunto, a divisão mesmo de objetivos, a existência de numerosos organismos voltados cada um para determinado aspecto do problema dificulta um equacionamento total e a destinação até melhor dos recursos para o combate à destruição do meio ambiente humano.
A conscientização cada vez maior sobre a premência da adoção de medidas capazes de reverter o quadro de deterioração ambiental representa uma saudável esperança para o ser humano. Todavia, é vital que todos os países, inclusive os mais ricos, se unam numa tarefa global que visa, fundamentalmente, garantir a sobrevivência da própria humanidade neste planeta.





