Quando os Estados Unidos lançaram as bombas atômicas sobre Hiroshima, em 6 de agosto de 1945, e Nagasaki, três dias depois, a justificativa era das mais simples: tratava-se de matar 100 mil japoneses para evitar a morte de um milhão de soldados norte-americanos. A matemática se fundamentava na dificuldade de se conseguir levar o Japão à rendição incondicional, como havia acontecido com a Alemanha meses antes, e, diante dos bárbaros acontecimentos durante a Segunda Guerra Mundial, tudo parecia até muito adequado. Afinal, não era preciso apenas acabar com a guerra, mas se tornava necessário aniquilar os que, em tese, eram responsáveis pela barbárie desencadeada naqueles anos todos. E para os norte-americanos havia ainda a vingança do ataque japonês a Pearl Harbour, em 1941,
Não se cogitou então da falha básica do raciocínio: as 100 mil vítimas da bomba nas duas cidades japonesas não tinham, em verdade, praticamente nada a ver com a guerra, a política, e tudo o mais que a envolvia. Nem mesmo os cientistas sabiam exatamente o que iriam provocar com suas recentes invenções. Até por isto, não poucos historiadores dizem que o objetivo maior não era de fato acabar com uma guerra, já praticamente ganha, mas o de testar a bomba.
Seja como for, o teste foi fantástico. Nunca antes, nem mesmo durante os traumáticos bombardeios feitos primeiro contra a Grã-Bretanha pelos nazistas, depois pelos Aliados, contra a Alemanha, o engenho humano para a destruição havia atingido tamanho patamar: uma simples bomba acabou com uma cidade inteira. Adicionalmente, deixou resíduos que continuam matando gente até hoje. Não há dúvidas que isto comprovou, sem nenhuma dúvida, que a capacidade do homem para destruir o semelhante é imensa, quase infinita.
O que os chamados ‘homens de boa vontade’ (que sempre existem) esperavam é que o horror deflagrado pelas bombas atômicas tivesse servido de lição. Infelizmente, não é o que aconteceu. Ao longo dos 53 anos que se passaram desde aquele crime contra a humanidade, o que se viu foi o aperfeiçoamento bélico das grandes e nem tão grandes potências, a construção de armas cada vez mais poderosas, de tal modo que hoje as bombas de Hiroshima e Nagasaki parecem insignificantes. Mais sério ainda é saber que ao longo deste tempo não poucas vezes houve a intenção de usar de novo aqueles artefatos. Logo no começo da chamada guerra fria, quando os soviéticos ainda não tinham dominado o segredo atômico, muitos sugeriram que os Estados Unidos acabassem com o perigo comunista, lançando alguns pares de bombas sobre a União Soviética. Posteriormente, na guerra do Vietnã, também foi difícil conter os que queriam acabar com a luta, usando o mesmo caminho.
O fim da guerra fria deu a impressão de que o terror nuclear também estava terminado, que agora a bomba e sua destruição só seriam lembradas a cada agosto, no Japão. Outra vez, porém, a impressão é a de que a insanidade humana é maior que qualquer racionalismo. Índia e Paquistão, dois países pobres, envolvidos em uma guerra que dura meio século, experimentam artefatos nucleares e ameaçam usá-los na sua luta. Ameaça que soa incoerente e absurda, mas que pode se concretizar, assim como também não se duvida que outros países, em outros pontos do planeta, pensem o mesmo. Isso, sem falar no contrabando de artefatos nucleares, atividade que ganhou força a partir do esboroamento da antiga URSS e que hoje se amplia em países do Leste Europeu. Seria de profunda validade que o transcurso do aniversário da destruição de Hiroshima e Nagasaki servisse para clarear um pouco a mente dos que pensam que bombas atômicas solucionam alguma coisa. Elas não resolvem nada. Deixam, isso sim, um rastro de dor e uma chaga aberta na trajetória humana.

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