A alta do petróleo
A alta no preço do petróleo, que passou dos 30 dólares o barril, provocou natural preocupação no Brasil, como no mundo. Os mais antigos rememoraram a verdadeira hecatombe provocada pelo chamado ‘‘choque do petróleo’’, nos anos 70, quando os preços do produto quadruplicaram repentinamente. Os produtores perceberam, então, que vinham sendo explorados pelos países consumidores e, com a criação da OPEP, produziram uma realidade apavorante, em especial para o Ocidente. No Brasil, que era quase que totalmente dependente da importação do petróleo, a alta provocou o fim do ‘‘milagre econômico’’ que embalou os primeiros anos da Revolução, dando início ao pesadelo de uma situação que foi se deteriorando de modo rápido, trazendo recessão e confusão em praticamente todos os setores.
O segundo choque de preços, ocorrido algum tempo depois, já foi melhor absorvido e, hoje, a situação não chega a ser tão dramática quanto há cerca de 30 anos. Entretanto, é fora de dúvida que esta repentina alta traz preocupações, inclusive porque ameaça planos de recuperação, põe em risco projetos econômicos e restabelece a necessidade de se repensar a questão energética, um assunto que se tornou prioritário nos anos 70 mas que acabou deixado de lado diante da tendência de estabilidade nos preços do produto, nos últimos anos.
A atual elevação não está ainda ligada ao problema que alguns antecipavam no passado (a possibilidade do esgotamento das reservas de petróleo no mundo) tendo muito mais a ver com a especulação internacional, inclusive por parte dos países produtores. Embora o mundo tenha atualmente o maior contingente populacional de toda sua longa História, o que implica, entre outras coisas, em aumento nas necessidades energéticas, as reservas de petróleo conhecidas ainda são suficientes para o abastecimento, ao menos nos próximos anos. Porém, como se trata de mercadoria valiosa e que pode se esgotar, os países produtores têm interesse em obter por ela o maior preço possível.
O fundamental é restaurar a percepção sobre a vital necessidade de se adotar políticas que possam garantir a cada país a auto-suficiência no setor energético. O Brasil, que só começou a se preocupar realmente com a produção de petróleo depois do choque de 30 anos atrás, conseguiu alguns bons resultados. Houve inclusive uma adequada e bem conduzida política de racionalização no consumo, com resultados bastante positivos naquela ocasião. Os investimentos na prospecção de novos campos e a adoção de tecnologia para exploração na plataforma continental também foram pontos positivos de um trabalho sério. Do mesmo modo, a busca de energia alternativa, com o grande sucesso do plano de uso do álcool nos veículos até então movidos só a gasolina, foi importante, apontando para um caminho novo e que daria ao Brasil uma situação realmente ímpar no mundo, pela possibilidade de produzir a energia renovável. Programas de exploração de energia alternativa (solar, eólica, entre outras), assim como um melhor aproveitamento do potencial de energia hidrelétrica foram outros tantos exemplos de sucesso na luta pela diversificação e auto-suficiência energética do País.
Com a estabilidade nos preços do petróleo, o Brasil porém deixou outra vez de lado todo este trabalho. Mas a atual alta, ainda que não se mantenha, pode servir como um sinal. Poucos países no mundo têm condições para conseguir resultados assim no campo da energia alternativa, livrando-se do peso da importação do petróleo e criando condições para ingressar numa fase importante de crescimento, sem dependência.

mockup