Editorial - A agressão contra Covas
Não há adjetivos suficientes para comentar os acontecimentos ocorridos no centro da capital paulista, onde o governador Mário Covas foi agredido por professores em greve, saindo do episódio com algumas contusões e com enorme superioridade moral em face dos agressores. Afirmar que o governador paulista afrontou os grevistas ao insistir em entrar na Secretaria da Educação, localizada na Praça da República, pela porta da frente, passando por um verdadeiro acampamento montado pelos grevistas, é tentar confundir a questão. Por mais razão que tenham os professores, é certo que estão dando exemplo negativo ao criar uma situação abusiva, formando barreiras diante do prédio que abriga a Secretaria. Ademais, este seria o momento de evidenciar maior elevação, com uma atitude simples que seria a de permitir a passagem do governador, sem agressões. Naturalmente, há todo um clima negativo envolvendo as relações entre o governo e os professores e é até possível entender uma reação mais pesada diante dos fatos. De qualquer modo, o fato em si é lamentável e, principalmente, negativo para os grevistas e não apenas porque criaram uma situação constrangedora e de violência, mas porque acabam por apresentar uma face irracional que não condiz com a profissão e com os seus mais que justos reclamos.
Quando a polícia (que, em última instância, está sob as ordens do governador do Estado) agride grevistas ou manifestantes, a grita é geral e justificada, como na recente ação policial contra os sem-terra, nas proximidades de Curitiba: por mais que a autoridade insistisse que agia de modo preventivo, igualmente produziu efeito negativo para o governo do Estado. Da mesma forma, até hoje lembra-se do episódio envolvendo Polícia e professores no governo Álvaro Dias. Entretanto, não se pode deixar de observar que o contrário também cria uma situação que não pode ser aceita ou reconhecida. Pior: em tese, eram professores os acampados, os que agrediram ou incitaram a agressão contra o governador. Como educadores que são, deram o pior dos exemplos.
Naturalmente, o sr. Mário Covas não é apenas uma vítima. Em verdade, neste quadro todo de violência há que considerar o papel que os governantes vêm desempenhando em relação ao funcionalismo público o que vai além até da greve dos professores. O que se tem é uma sequência de fatos que se entrelaçam e acabam por provocar situações como esta vivida pelo governador paulista. Como muito corretamente diz o ditado popular, violência gera violência. E é certo que nestes episódios que envolvem o funcionalismo a primeira violência é a de um salário incompatível até com a dignidade do trabalhador; e a segunda, a postura totalitária de governos que se negam a negociar, a buscar o diálogo, a tentar a aproximação com os funcionários. Ademais, e infelizmente, é possível encontrar ainda mais fatos negativos, entre os quais a existência de funcionários fantasmas, de marajás sem função, sem contar as múltiplas denúncias sobre inadequado uso de verbas destinadas a fins específicos, como as do Fundef.
O ideal em todo este quadro é que a violência cesse, que as partes busquem o entendimento, o que é possível quando a relação se realize em termos elevados. Os governos estaduais, assim como a União, têm suas razões na execução de suas políticas salariais. Os trabalhadores, porém, também têm motivos para a insatisfação e até justificativa para as greves diante da falta de disposição dos seus empregadores para o diálogo. Uns e outros precisam se desarmar, reaproximar e encontrar denominadores comuns para pôr fim a esta violência que atinge, principalmente, a sociedade brasileira.





