Quando o Plano Real entrou em vigor, no primeiro dia de julho de 1994, o ceticismo foi quase unânime. A inflação no primeiro semestre daquele ano tinha alcançado 1.568%, e o Real era o oitavo plano antiinflacionário aplicado em oito anos. Ainda era muito forte a lembrança do ‘fabuloso’ Plano Cruzado, lançado pelo então presidente José Sarney em fevereiro de 1986 e que, nos primeiros tempos, dava a impressão de ser a ‘grande solução’ para os imensos problemas econômicos brasileiros. Na época, o Plano Cruzado deu ao partido de Sarney, o PMDB, a mais estrondosa vitória eleitoral já conseguida em todos os tempos. O despertar pós-eleitoral é que foi trágico, com a economia voltando ao caos, o País mergulhando no desespero, culminando tudo com a eleição de Fernando Collor de Mello, novos ‘planos’, incluindo o saque da poupança, e mais fracasso. Não poucos, entre eles o então candidato à Presidência, hoje companheiro de chapa de Luiz Inácio Lula da Silva, o sr. Leonel Brizola, diziam que era mais um plano eleitoreiro e que, depois de outubro, as coisas voltariam a piorar.
Não foi o que aconteceu. Inegavelmente, o Plano Real foi a base sobre a qual o sr. Fernando Henrique Cardoso, ex-ministro da Fazenda no governo Itamar Franco, portanto considerado mentor do programa de estabilização, conquistou a impressionante vitória para a Presidência logo no primeiro turno. Todavia, o plano não afundou depois das eleições, ao contrário do que diziam os adversários de FHC. Quatro anos depois, até os mais céticos reconhecem as maiores conquistas do Plano: a inflação anual brasileira é agora inferior a 5% - há estimativa de que fique próxima de 0% este ano - e a moeda nacional, o real, ainda se mantém estável apesar dos embates da crise. Ao mesmo tempo, o Brasil - até então uma das nações mais fechadas e protecionistas do mundo - se somou nestes quatro anos à globalização econômica mundial: a abertura financeira transformou o País no segundo maior receptor de capitais do mundo entre as economias emergentes, depois da China. O Plano Real, porém, não somente permitiu o festim dos capitalistas estrangeiros. Segundo cifras oficiais, a estabilidade monetária e econômica destes quatro anos tirou da pobreza mais de 13 milhões de brasileiros, ou seja, 8% da população total.
Entretanto, o positivo balanço econômico dos quatro anos de governo do presidente Fernando Henrique Cardoso está, agora, seriamente obscurecido pelos efeitos da crise internacional, que geraram desemprego e situam o Brasil nesse final de 1998 à beira de uma recessão. A menos de uma semana das eleições, o Brasil é uma síntese de luzes e sombras econômicas: a moeda ainda é estável, mas o desemprego cresce, a hiperinflação foi desterrada e vivemos sob a ameaça de uma brutal recessão.
A longa crise, iniciada na Ásia em meados de 97 e que percorreu a Rússia e a América Latina em 98, pode pôr fim à lua-de-mel entre a população brasileira e o Plano Real. A crise ameaça a estabilidade econômica do Brasil. Entretanto, Fernando Henrique Cardoso continua sendo o favorito: é evidente que os eleitores não querem mudanças em tempos de turbulência.
Previsões pessimistas voltam a ocupar a cena. A situação hoje, sem dúvida, é diferente da vivida há quatro anos. Embora a crise que se descortina possa ser assustadora, é importante ressaltar que o grande agente da transformação ocorrida no último quatriênio no Brasil não foi o presidente, foi o povo. E este é quem, sem dúvida, poderá continuar a ser o responsável por uma resposta positiva contra a sinistrose que toma conta dos arautos do ‘sempre pior’, resolvendo a seu tempo as dificuldades que estão por vir.

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