A inflação medida pelo Índice Geral de Preços Disponibilidade Interna (IGP-DI) subiu 1,47% em dezembro do ano passado, em relação ao mês anterior, informou a Fundação Getúlio Vargas (FGV). É a maior taxa desde março de 2003. Confirmando a forte pressão dos alimentos, a inflação em 2007, medida pelo índice, terminou em 7,89%, ante taxa de 3,79% em 2006.

Mas nem mesmo esses índices revertem o cenário para lá de otimista na área econômica. Neste ano, segundo pesquisa da própria FGV, 75% das empresas esperam aumentar as vendas, 53% querem investir mais e 46% pretendem aumentar o número de funcionários.

Em entrevista à FOLHA, o economista e professor da UEL Antônio Carlos Moretto faz prognóstico da economia para 2008, confirmando o momento de estabilidade e levantando mais polêmica sobre o aumento de tributos após o fim da CPMF: ''O que seria melhor, continuar pagando a CPMF ou ter que pagar agora duas vezes?''.

Há o que temer quanto ao controle da inflação?
A tendência este ano é de que a inflação fique estabilizada. É preciso observar a produção de alimentos, um dos componentes que mais afeta a inflação. A procura no mercado mundial deve aumentar, e isso pode elevar o preço de alguns alimentos por aqui. Outro ponto que precisa ser levado em consideração é o clima. O feijão é um caso típico que está acontecendo agora. Por problemas climáticos, a oferta foi reduzida e os preços subiram (cerca de 200%, no atacado). Mas a tendência é de estabilidade.

A partir da estabilização da inflação, é possível reduzir mais os juros ou isso pode ser desastroso para a economia?
A taxa de juros afeta toda a economia, desde a produção até o consumo. Se cai muito, do lado do governo é bom porque paga menos juros da dívida pública. Para os empresários também é bom, porque eles podem produzir mais, fica mais barato o investimento. Agora tem o outro lado, do consumo. Uma taxa de juros muito baixa pode elevar o consumo rapidamente. A oferta não responde em curto prazo e aí há uma aceleração da inflação.

A política econômica do governo está no caminho certo?
Essa política monetária vem dando certo. Controla a inflação e reduz a dívida pública.

Com o fim da CPMF e o aumento de outros impostos, o bolso do brasileiro ficará mais aliviado ou mais pesado?
Com a CPMF, todos pagávamos os 0,38% sobre as movimentações nos bancos. Ela foi extinta e, teoricamente, as empresas que tinham esta taxa embutida no produto deveriam reduzi-la para os consumidores pagarem 0,38% a menos. Vejo que a maioria das empresas não vai fazer isso. O governo, por outro lado, vai tentar compensar esta perda, como estamos vendo pelas medidas que já foram tomadas. Este aumento de tributos vai encarecer ainda mais a produção. Se as empresas não reduziram os 0,38% que elas pagavam pela CPMF e ainda vão acrescentar o excedente de tributos que elas terão que pagar, a partir de agora, os preços tendem a subir e o consumidor vai acabar pagando duas vezes. O que seria melhor, continuar pagando a CPMF ou ter que pagar agora duas vezes?

O aumento do poder de compra da população é um fato?
Com base nos dados do IBGE, há um aumento na renda média do brasileiro. O poder de compra melhorou, sem dúvida. O salário médio no Brasil tem crescido, e a gente percebe este reflexo no consumo. Outro fator que contribuiu bastante foi a taxa de juros menor e uma oferta de crédito bastante acentuada. A classe média baixa virou alvo das empresas de varejo. Lojas na internet, cartões de crédito também estão voltando sua atenção para esta classe média baixa, com um potencial grande, que até então passava despercebido.

A rentabilidade das empresas brasileiras atingiu o melhor índice desde 2003. Uma queda contínua do dólar pode prejudicar este bom momento?
A valorização do real frente ao dólar traz vantagens e problemas ao mesmo tempo. Para as empresas que exportam é um problema, porque sem dúvida você reduz a rentabilidade. Por outro lado, para as indústrias que estão investindo, reformando seu parque industrial, é bom, porque elas conseguem comprar máquinas e equipamentos a um preço menor, e vão se modernizando mais rapidamente. A valorização do real trouxe esse benefício para a economia, porque aumenta a produtividade. Se a empresa fica mais produtiva, pode até exportar recebendo menos.

Diante do atual momento econômico brasileiro, existe uma forma segura de investir?
O consumidor que tem um pouco de reservas deve diversificar os investimentos. Aplicar um pouco em ações, que tiveram um 2007 muito bom e devem ter um ano semelhante, investir até mesmo na velha poupança, nas aplicações de renda fixa. A pessoa deve optar por pelo menos duas aplicações diferentes. Se você investir em uma e perder, vai perder tudo. Se diversificar, perde em uma, mas pode compensar nas outras duas. A dica é reduzir o risco, porque toda aplicação tem risco.

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