Economia e revolta - Rubem Azevedo Lima
Economia e revolta
Rubem Azevedo LimaSopra um vento de revolta na América do Sul. Entre o extremo da guerrilha na Colômbia - que existe há quarenta anos - e a novíssima aventura visionária de Hugo Chávez, na Venezuela, cresce, com ímpeto cada vez maior, a luta dos sem-terra, no Brasil. Há, claro, outras formas de protestos, nesses e noutros países sul-americanos, como, no Brasil, o movimento dos caminhoneiros contra aumentos de combustível e de pedágios e os salários cada vez mais baixos, numa economia que se diz estável. Mas os protestos citados no início constituem padrões exemplares de combate à miséria dominante no subcontinente - além de revelarem a indiferença das respectivas elites políticas, face à exclusão econômica e social da maioria do povo, na América do Sul.
Nas favelas, que cercam quase todas as capitais e megalópoles latino-americanas, há um clima de guerra civil latente, das legiões de miseráveis e dos que sobrevivem principalmente da criminalidade.
Muito dessa miséria é produzido - segundo Mark Weisbrot, diretor de pesquisa do Preamble Center - pela globalização econômica e por ação do FMI, que, nos últimos anos, jogaram dezenas de milhões de pessoas, em todo o mundo, particularmente nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, abaixo da linha de pobreza absoluta.
Mesmo nos EUA - revela Thomas Palley, diretor-assistente de Políticas Públicas da AFL-CIO - de março de 1998 até hoje, eliminaram-se 400 mil empregos de mão-de-obra manufatureira e os salários dos trabalhadores do setor caíram 50%, entre 1993 e 1998.
Há quarenta anos, os economistas sabiam da importância reguladora do Estado - para promover o desenvolvimento econômico - e de algum tipo de controle dos mercados, a fim de evitar crises e depressões. Mas esses valores foram desprezados pelo neoliberalismo, como o conhecimento das ciências físicas - diz Weisbrot - foi abandonado na Idade Média.
Os resultados desse fenômeno estão aí: miséria crescente no mundo, sobretudo nos 74 países cujo controle econômico (caso do Brasil) é feito pelo FMI. O mesmo economista cita como exemplo, para os demais países, a China, que repele a receita do FMI e aplica US$ 200 bilhões em obras públicas e programas sociais. Por isso, em 1998, o crescimento econômico chinês foi de 7,6%, com a incorporação significativa de milhões de consumidores ao seu mercado interno.
A solução do problema da pobreza e do desenvolvimento, sem diferenças sociais e regionais chocantes, pode estar, pois, na prática desse modelo econômico, independentemente de considerações ideológicas.
No Brasil, que expulsa os sem-terra das invasões de propriedades rurais, mas não faz o mesmo com os invasores de terras indígenas, fala-se, apenas, em criar impostos contra a miséria, a ser pago até por assalariados, para minorar as agruras dos pobres, sem tirar, porém, o País das garras do FMI e das forças mundiais do mercado. Esse imposto renderia, em dez anos, entre US$ 60 bilhões e US$ 80 bilhões.
A idéia tem uma falha: esquece os US$ 800 bilhões que os ricos, segundo Everardo Maciel, diretor da Receita, devem hoje, ao Tesouro, por sonegação, elisão e renúncia fiscal. Favores que o neoliberalismo fez à riqueza e aumentaram a pobreza nacional. Cobrados tais débitos, haveria menos brasileiros pobres e os ventos da revolta não soprariam tão fortes no País.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília





