Economia e política - André Gustavo Stumpf
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 04 de setembro de 1998
André Gustavo Stumpf 
Crises econômicas costumam produzir enormes estragos políticos no Brasil. O modelo dependente de capital externo não é uma novidade introduzida pelos economistas da era Fernando Henrique. É uma constante na história deste país. Quando ocorre uma crise lá fora, seus efeitos atravessam as fronteiras em alta velocidade e provocam graves turbulências internas.
Para ficar apenas nos exemplos deste século, o crack da Bolsa de Nova York, em 1929, destruiu as reservas financeiras da elite da época, favoreceu a Revolução de 30, que acabou com a República Velha e colocou Getúlio Vargas no poder. O próprio Vargas, quinze anos depois, sentiria o peso dessa lei inexorável.
A vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial e a reorganização financeira do mundo, numa espécie de globalização limitada ao ocidente democrático e capitalista, provocou sua queda e o surgimento da Constituinte de 1946. João Goulart, nos anos 60, aparentemente, não entendeu que estava lutando contra problemas institucionais complexos e uma crise financeira do Estado. Caiu. Foi substituído pelos militares, em 1964.
Os militares também provaram o gosto amargo dessa constante histórica. A crise da dívida externa, ocorrida nos anos 80, fez com que o governo dos generais perdesse sua eficiência. O dinheiro acabou, a inflação subiu e os bancos internacionais apresentaram a conta dos empréstimos. Tancredo Neves percebeu a chance e se elegeu pelo colégio eleitoral. O ciclo militar encerrou-se ali.
O capital internacional não faz acordos de longo prazo. Tudo é imediato. Por essa razão, diversos grupos latino-americanos temem negociar com Washington. O adversário de hoje é o aliado de amanhã. E vice-versa. Mas o presidente Fernando Henrique Cardoso, um ex-esquerdista na visão norte-americana, manobrou bem no sentido de desmontar a oposição organizada no País. Ele não teme golpes ou quarteladas. No Brasil, a alternativa a ele é ele mesmo.
No entanto, na hipótese cada vez mais presente de que os economistas do governo tenham errado nas previsões e expectativas, a crise externa vai provocar estragos internos de bom tamanho. A primeira vítima deverá ser a verdade. Logo aparecerá uma teoria para explicar as quebras e fazer com que o passado seja esquecido. A segunda poderá ser o homem comum obrigado a conviver com uma recessão pesada. E os fatos apontam para que a terceira vítima seja o grupo de auxiliares do presidente, que poderá ser obrigado a realizar radical correção de rumos.
A perspectiva de segundo mandato até agora não foi afetada pela crise. Mas o novo período presidencial deverá corresponder dentro do País a uma espécie de novo consenso de Washington. A crise é mundial, mas os países desenvolvidos não pagam a conta. Entregam o ônus aos emergentes ou, como se dizia antigamente, aos subdesenvolvidos. É um filme antigo, já visto.
Os países periféricos ou dependentes, como os descrevia o professor Fernando Henrique Cardoso, morrem no final.
- ANDRÉ GUSTAVO STUMPF é jornalista em Brasília


