ECONOMIA E ECOLOGIA - País tem espaço para produzir alimentos e preservar ambiente
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Marcela Rocha Mendes<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Conciliar preservação ambiental e produção de alimentos ainda é um desafio. De um lado, os ambientalistas. Do outro, produtores rurais. Para o cientista social José Augusto Drummond, da Universidade de Brasília (UnB), o Brasil é grande o suficiente para atender os dois segmentos, uma vez que há espaço no território nacional, em especial no Norte e no Nordeste, para expandir tanto as áreas de cultivo de alimentos quanto as unidades de conservação.
Ele, no entanto, questiona a prioridade de um sobre o outro. ''Plantar soja, batata, milho, qualquer país pode plantar. Mas, ter uma biodiversidade como a nossa, ninguém tem'', afirma Drummond, que atua no Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB e é doutor em recursos naturais e desenvolvimento.
Esta semana, ele participa do VI Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação com palestra sobre ''a extensão das áreas protegidas por unidades de conservação (UC) em face do crescimento das áreas dedicadas a atividades produtivas.''
®MDBO¯É possível produzir e conservar ao mesmo tempo?®MDNM¯
®MDNM¯ Toda forma de agricultura ou pecuária é, por definição, destruição de um ecossistema, de uma forma de vida. Quando uma cultura nova abre terreno, ela predomina ali. Não existe nenhum tipo de agricultura - indígena, quilombola etc - que não altere a natureza.
®MDBO¯ No Brasil, há equilíbrio entre as áreas utilizadas para atividades produtivas e as de conservação ambiental?®MDNM¯
Um estudo feito recentemente pela Embrapa indica que a agricultura comercial está bloqueada pelas unidades de conservação (UC). Como se as perspectivas de expansão da agricultura estivessem bloqueadas. Só que também tem que ser levada em conta a quantidade de área ocupada por agricultura e pecuária e as áreas destinadas à estrutura necessária para a produção, como estradas, portos, linhas de transmissão.
®MDBO¯ Qual é essa proporção hoje?
®MDNM¯ Já foram destinados para a reforma agrária 5% de todo o território nacional. É mais ou menos a mesma área das unidades de conservação de proteção integral. Esse estudo da Embrapa mostra que só 30% do território brasileiro são utilizados para a agricultura - somando as partes já ocupadas e aquelas que ainda serão. Mas, isso, em um país com as proporções continentais do Brasil, é muita coisa. Há espaço para a produção e para a conservação.
®MDBO¯ As áreas preservadas realmente impedem a expansão da agricultura?
®MDNM¯ Muitos locais onde existe essa intenção de expandir a produção não estão nem perto das unidades de conservação. O que os ruralistas querem é impedir a criação de novas áreas de proteção. Hoje a agricultura cresce no Nordeste, na Amazônia e até na caatinga. É ali que acontece a briga entre as duas frentes. Em outros lugares, como no Paraná, essa proporção já está congelada. A agricultura não pode se expandir mais, não por causa das UC, mas porque já está tudo tomado.
®MDBO¯ O que deve prevalecer no 'duelo' entre a natureza e a produção?
®MDNM¯ Tem espaço para os dois. O Brasil se tornou exportador de várias culturas, como a soja. Mas qualquer biólogo sabe que onde há calor e água é onde a vida mais se manifesta. Nosso país é campeão em biodiversidade. Plantar soja, batata, milho, qualquer país pode plantar. Mas ter uma biodiversidade como a nossa ninguém tem. E conservar isso implica em controlar o crescimento da agricultura e da pecuária. Não estou dizendo em parar de plantar. Há espaço suficiente para tudo.
®MDBO¯ Mas a agricultura não dá mais retorno econômico?®MDNM¯
Hoje, com o assunto da preservação em destaque nos grandes fóruns internacionais, o Brasil pode ser líder nesse segmento. E pode obter vantagens. Por exemplo, fazer com que os demais países - que já destruíram as suas reservas naturais - paguem para que nós conservemos a nossa. Podemos fazer pesquisas e retirar dali matéria-prima para remédios, perfumes, cosméticos e até madeira. A possibilidade de ganhos financeiros é grande. Existem unidades de conservação que permitem produção, como corte de árvores, pesca, mineração e até indústria.
®MDBO¯É preciso alguma mudança nas leis nesse sentido?®MDNM¯
A nossa legislação hoje é mais do que suficiente para proteger essa biodiversidade em todos os graus. Só que o Brasil tem lei que pega e lei que não pega. Talvez o que precise é uma maior estabilidade e aplicação efetiva dessas leis. Soube que tramita na Assembleia Legislativa de São Paulo um projeto de lei para que o dono de terra seja ressarcido das ''perdas'' de produção na área de reserva legal de suas fazendas. É um absurdo porque estaremos pagando para a pessoa cumprir a lei. Mas, se for necessário para que ela seja cumprida, é um caminho.


