A Saúde do Brasil encontra-se, hoje, num estado pior do que a saúde do brasileiro, vítima da insensibilidade crônica dos responsáveis pela liberação de verbas, alocação de recursos e toda a burocracia fazendária que sufoca este país.
Em que pesem as expressivas conquistas econômicas, a estabilidade que teria permitido as autoridades um planejamento mais coerente das políticas de saúde, assistimos perplexos ao retorno de doenças que há muito tinham deixado o dia-a-dia dos brasileiros.
Pouco se investe em prevenção e as consequências não se fizeram esperar: a recente epidemia de sarampo que atingiu inclusive adultos, mostra claramente o preço pago pela economia irresponsável que corta recursos destinados à vacinação para despendê-los, muitas vezes maiores, no tratamento e internação de pacientes que poderiam ter sido poupados destes males.
Mesmo a instituição de um novo tributo, fruto de uma vitória pessoal do então ministro Adib Jatene, não foi capaz de minorar estes problemas. A própria população brasileira compreendeu a necessidade da nova taxa, que, embora antipática, surgiu como um sinal de esperança para uma área fundamental para o desenvolvimento deste país. O que vemos, no entanto, é que este adicional - a previsão de arrecadação com a CPMF para 1998 é de aproximadamente 7 bilhões de reais - corre o risco de se tornar a parte expressiva dos recursos para a Saúde ao invés de uma injeção adicional, o que, aliás, era a sua proposta primeira.
Deste modo, iniciamos o último quadrimestre do ano com as piores perspectivas possíveis: cortes orçamentários que podem representar uma redução de mais de 60% nos recursos anteriormente previstos para o próximo ano, e que sem dúvida se refletirão em todas as áreas de abrangência da saúde, em especial aquelas que necessitam de medicação e acompanhamento clínico especializados e constantes.
É, por exemplo, o caso da AIDS, que poderá ter todo o seu complexo de ações comprometido: das campanhas de prevenção e esclarecimento, até o tratamento e internação, de nada adiantando contra isso a lei que garante ao paciente de AIDS acesso público e gratuito à terapêutica necessária.
Esta situação é tão mais séria quando constatamos que, em caso de interrupção de tratamento ou modificação da droga utilizada em função de disponibilidade de estoques, o paciente corre o risco de desenvolver resistência precoce ao fármacos atualmente disponíveis. É o que pode vir a acontecer com os inibidores de protease que compõem parte do ‘‘coquetel’’, caso as autoridades responsáveis pela liberação de recursos não tomem imediatas providências para garantir o abastecimento da rede pública. Mesmo hoje, em certas cidades, este abastecimento já se encontra em níveis de alto risco, às vezes dependendo de remanejamento e transferências de medicamento de outras localidades.
Na verdade, o problema se compõe de irresponsabilidade aliada à insensibilidade. Se os burocratas de plantão não se incomodam com detalhes como qualidade de vida e sobrevivência de uma parcela da população brasileira que, aliás, pode prosseguir economicamente ativa se receber o tratamento adequado, deveriam pelo menos, se ater à área que dizem dominar: os números.
Pelo menos dois estudos recentemente divulgados - um canadense e outro francês - demonstram que o investimento realizado em tratamento ambulatorial dos pacientes com AIDS reduz em muitas vezes os gastos necessários com tratamentos hospitalares destes mesmos pacientes.
Não estamos buscando soluções que possam até ser tecnicamente adequadas sob o ponto de vista econômico. Estamos buscando soluções que tragam alívio, esperança e sobrevida a pessoas. Gente, não números. Seres humanos, não índices.
Todos temos nossa parcela de responsabilidade nesta batalha. Nós, profissionais de saúde, as autoridades e mesmo os próprios pacientes, isoladamente ou por intermédio de associações que os representem. Cada representante da sociedade pode e deve interferir na determinação dos orçamentos atuais e futuros. Basta vontade e tempo. Vontade, todos temos de sobra. O tempo, porém, está se esgotando - muito mais rapidamente do que imaginamos.

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