ECONOMIA BLINDADA 'Estamos muito menos vulneráveis às crises
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quarta-feira, 16 de julho de 2008
Marco Feltrin<br>Reportagem Local 
A meta de inflação para este ano no Brasil é de 4,5%, mas a pesquisa divulgada no início desta semana pelo Banco Central mostra que a expectativa dos analistas de mercado é de inflação de 6,48% no final do ano.
Em entrevista exclusiva à FOLHA, o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, que ocupou a pasta no final dos anos 90 durante o governo Sarney, faz uma análise do atual momento econômico do País, e garante que estamos blindados tanto em relação à crise americana quanto a novas intempéries no mercado internacional.
Qual a avaliação que o senhor faz sobre a atuação do Banco Central?
O Banco Central é autônomo para tomar decisões, por mais duras que elas sejam, por maiores que sejam os protestos. Mais do que isso: o BC está se sobressaindo em todo o mundo como aquele que foi capaz de perceber o momento adequado de agir preventivamente para evitar que a inflação atingesse níveis indesejáveis. A teoria e a experiência mostram que o custo da demora em enfrentar um processo inflacionário é muito maior do que de uma medida tomada no tempo certo.
O governo está no caminho certo então?
Só não está totalmente no caminho certo porque este esforço do Banco Central poderia ser complementado pelo Tesouro Nacional se houvesse um corte razoável de gastos. Infelizmente, isso não está sendo feito.
A tendência da taxa de juros é continuar subindo?
Vai continuar subindo, até que fique claro que o processo continua sob controle. A tendência é que a taxa Selic chegue a 14,25% no final do ano.
Tivemos nas últimas semanas uma queda no otimismo com relação à Bovespa. O bom momento já passou e vivemos uma outra realidade?
Não, o Brasil continua tendo uma economia muito promissora para o mercado acionário. Estamos vendo um ambiente de nervosismo em todo o mundo, fruto dos desdobramentos da crise americana. Mas dificilmente isso vá desembocar em algo mais grave, porque tudo indica que o pior já passou.
E o que está por vir?
Agora vai ser discutido um outro tipo de problema, que é a recessão americana e seus efeitos. Tudo indica que a recessão é inevitável. Resta saber quão profunda e duradoura ela será. Todo processo recessivo termina impactando negativamente o mercado acionário, porque cai o lucro das empresas, as perspectivas de ganho dos investidores em ações. Enquanto este processo não é todo absorvido, nós vamos ter momentos de altos e baixos no mercado acionário, como estamos vivendo agora.
Quais são as influências para esta instabilidade?
Uma série de eventos negativos, como o preço do petróleo que subiu muito, as avaliações sobre o futuro da General Motors - que fez as ações da empresa caírem 14% em um dia - e as informações de bancos ingleses que estariam passando por dificuldades. Esta sucessão de más notícias leva muitos investidores a se desfazer de suas ações. O mês de junho teve a maior saída do mercado acionário brasileiro, com quase R$ 7 bilhões. São investidores deixando o Brasil para cobrir suas perdas em outros mercados. Isso tem limites, e vai chegar um ponto em que as ações ficam tão baratas que os investidores voltam a comprar. Eu concordo com grande parte dos analistas de mercado que a Bolsa pode chegar no fim do ano a até 80 mil pontos.
Isso mostra que o Brasil está blindado a crises internacionais?
O desempenho do País nesta crise mostrou que nós estamos muito menos vulneráveis. Não é mais como diziam no passado, que quando a economia americana espirra, a brasileira tem uma pneumonia. Cada vez mais, os investidores acreditam que o Brasil está entrando em um novo patamar de evolução institucional, em que não há risco dos políticos e do governo mandarem o Banco Central colocar a taxa de juros no que parece ser mais adequado para eles. O BC não quer jogar o Brasil em uma recessão, e sim desacelerar o ritmo de crescimento para que fiquemos dentro do que é sustentável. A economia brasileira estava crescendo a um ritmo de 6%, muito acima do nosso potencial. Embora seja um número polêmico, existe um cálculo de que nossa economia só pode crescer 4,5%. Quando cresce abaixo disso, está subutilizando os fatores de produção. Quando sobe acima disso, gera desequilíbrio, principalmente inflação.
Com relação ao aumento considerável de oferta de crédito nos últimos anos, isso pode ser um risco para a economia ou é positivo, ou seja, quanto mais crédito melhor?
É positivo, e tem uma importância muito grande do ponto de vista social, econômico. Mais pessoas e empresas estão tendo acesso ao crédito, que é uma das molas de crescimento econômico do sistema capitalista. Provavelmente vamos ter que desacelerar isso, mas dificilmente para voltar a níveis pobres de crédito do passado. Não há motivo para nenhum desespero.


