Ao que indica o último Relatório Trimestral de Inflação (RTI), divulgado pelo Banco Central em dezembro de 2015, o ano passado terminou com alta de 18,2% nos preços administrados pelo governo. Segundo o BC, houve um represamento destes preços nos anos anteriores que resultou na alta em 2015. Os preços livres tiveram uma alta bem menor, de 8,4%. O órgão credita a alta dos preços administrados a fatores como a desvalorização cambial, a crise política e os efeitos climáticos.

Os maiores "vilões" dos preços administrados foram a energia elétrica, que teve aumento de 51,2%, e a gasolina, com 19,3% de incremento. Água e esgoto, planos de saúde e transporte urbano também tiveram fortes altas, de 14,8%, 11,8% e 10,6%, respectivamente. Com isso, a inflação oficial do País ficou estimada em 10,8% para 2015 e 6,2% para 2016. Conforme o RTI, só em um prazo de aproximadamente dois anos, em 2017, é que o índice finalmente ficará próximo do centro da meta definida pelo Banco Central, de 4,5%, alcançando os 4,8%.

Preços administrados são "bens essenciais", e portanto exercem forte impacto sobre a vida da população, diz Sérgio Bessa, economista e professor do Instituto Superior de Administração e Economia/Fundação Getúlio Vargas (Isae/FGV). Para ele, o represamento dos preços administrados já vem de quatro anos, e existem mais motivos por trás da decisão que simplesmente as regras do mercado. A medida foi uma das causas do cenário econômico recessivo gerado em 2015, com desemprego, inflação e taxas de juros altas e perda de credibilidade do País no mercado internacional.

Em entrevista à FOLHA, o professor explica como, em tese, deveriam ser calculados os reajustes nos preços administrados e sugere como estes valores poderiam ser "monitorados". Ainda, para que a economia brasileira não chegasse a esse ponto e para que seja recuperada nos próximos anos, ele aponta a necessidade de mudanças drásticas na forma como as contas do governo são administradas no País.

O que são preços administrados e qual o seu impacto no dia a dia das pessoas?
Preços administrados são chamados assim porque são preços que dependem de autorização do governo para terem seus valores reajustados. Estamos falando de combustível e isso vale também para a energia elétrica, água, tarifas de ônibus. São bens essenciais da população, e mesmo que esses serviços sejam privatizados, dentro do contrato de privatização diz que os reajustes têm que obedecer a uma autorização final do governo em cima de planilhas de custo e outros fatores.

Houve represamento dos reajustes destes preços nos últimos anos?
Por um projeto de poder, qualquer um destes itens, principalmente energia elétrica e combustível - porque tanto um quanto outro são itens que têm reflexos em todos os outros produtos vendidos -, teve preços represados ao longo dos quatro últimos anos, principalmente na parte de combustível, com o objetivo de não gerar inflação.

De quem era o interesse de que não houvesse inflação alta?
O interesse é essencialmente governamental, para que, ao não subir a inflação, a população tivesse uma sensação maior de bem-estar e isso acabasse se refletindo nas urnas na hora da eleição. O interesse é absolutamente político. Isso acabou dando certo para quem tinha o projeto, só que, ao fim da eleição, essa conta teve que ser paga. Ou seja, o que vinha sendo represado teve que começar a ser solto. E aí tivemos todos os preços soltos de uma vez. Então tivemos um reajuste de conta de luz de mais de 50%, reajuste de combustível de aproximadamente 50% dependendo da região do País... Todos esses reajustes causaram um impacto na inflação. E como veio tudo de uma vez, o impacto acaba sendo muito maior, acaba ficando mais visível.

No fim, a decisão não foi boa?
Tanto foi pior que estamos com a inflação alta. Desemprego aumentando, taxa de juros muito alta, o País perdendo credibilidade no mercado internacional. O que você tem que fazer para que os preços não cresçam? É preciso cuidar da carga tributária e cuidar da melhor produtividade, principalmente quando estivermos falando de combustível.

Em teoria, que variáveis deveriam contar ao compor o preço administrado?
Os reajustes são todos provenientes de custos que você tem. Se seu custo de produção aumenta, se você reajusta o salário de funcionários, se começa a ter custos maiores de produção e não joga isso no preço, você na verdade está começando a fazer preço artificial. Composição do preço é sempre o seguinte: custos mais a margem que você precisa. Se os meus custos aumentam e eu estiver querendo a mesma margem, e os preços não aumentarem, a única solução que sobra é vender mais. E para vender mais tem que ter mais gente para comprar. Se eu tenho uma economia que não cresce - como a economia brasileira não vem crescendo nos últimos quatro anos -, tenho custo crescendo, mas não consigo desovar. Eu teria que reduzir os meus custos. Aí temos atitudes contrárias do governo. O governo aumenta os custos das empresas. São essas variáveis que precisam ser consideradas.

É preciso haver um equilíbrio entre o peso social que os preços administrados exercem e o custo das empresas?
Sim. Não tem nenhuma cadeia produtiva de qualquer segmento em que os impostos não influem em cerca de 40% dos custos, porque o governo criou uma série de amarras para ele ao longo tempo. Estamos falando de uma série de custos que o governo tem, principalmente na parte de pessoal. Existe uma arrecadação muito grande para pagar esse custo de pessoal. Você tem, em qualquer governo do Brasil, inclusive no federal, a parte de pessoal e previdência respondendo por mais de 70% do custo. Em qualquer governo hoje você tem margem de 30% para investir em benefícios sociais. É uma espiral sem fim. O governo tem que cobrar mais impostos para poder ter mais chances de investir, e para ter mais chances de investir, ele cobra mais impostos e gera uma inflação mais alta. É preciso diminuir os custos governamentais para reduzir a necessidade de arrecadação para que isso gere diminuição no custo das empresas.

Existe um mecanismo para monitorar a maneira como os preços administrados estão sendo reajustados?
O mecanismo é as contas públicas. Se vai se vendo que ano a ano as necessidades de recursos das contas públicas estão aumentando, é porque o governo continua sendo perdulário nos seus gastos. Se eu estiver falando de governo, repassar os custos para o preço significa aumentar a carga tributária, que é arrecadação para o governo. O que é receita para o governo, é custo para as empresas.

Qual a perspectiva para 2016?
Acho que teremos com certeza outro ano com inflação acima de dois dígitos, se a gente não está conseguindo enxergar medidas de redução de gastos. Enxergo um cenário muito ruim porque não vejo nenhuma vontade política, nem capacidade econômica de tomar as medidas duras que é preciso tomar para melhorar a situação em 2016. Tirar benefícios, fazer reforma da previdência, reforma tributária, redução de gastos com pessoal do governo. Não consigo enxergar nenhum sinal de que essas medidas serão tomadas.

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