A Campanha da Fraternidade de 2025, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), aborda o tema "Fraternidade e Ecologia Integral", com o lema "Deus viu que tudo era muito bom" (Gn 1,31). Essa iniciativa busca despertar a sociedade para a crise socioambiental que ameaça a humanidade.

Os números falam por si. Em 2022, a Global Footprint Network revelou que foram usados recursos naturais equivalentes a 1,75 planeta. O Relatório Planeta Vivo mostrou que a biodiversidade global diminuiu 69% entre 1970 e 2022 e 94% na América Latina. Já o Relatório Anual do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente destacou que a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C até 2100, está praticamente inviabilizada.

As consequências do descaso com o planeta são devastadoras: intensificação dos desastres naturais, como furacões, secas e inundações; aceleração do derretimento de geleiras e da subida do nível dos oceanos, o que ameaça comunidades costeiras e regiões mais baixas; perda de biodiversidade corrompendo ecossistemas inteiros; crises alimentares fruto da desertificação de terras e redução da produtividade agrícola em muitas regiões; além de impactos à saúde humana, com o aumento de doenças respiratórias, cardiovasculares e a propagação de vírus.

Apesar das perspectivas alarmantes, a conscientização das populações é diminuta. Muitos encaram o problema como simples alarmismo ideológico e que o futuro trará as próprias soluções. Além do mais, os que detêm maior poder de intervenção, vivem em bolhas, blindados e protegidos de boa parte dos efeitos da crise.

Como apontou Karl Polanyi em "A Grande Transformação", abandonamos a lógica de uma "sociedade com mercado" e adotamos uma "sociedade de mercado", onde tudo orbita em torno do consumo. O mundo dividiu-se em duas categorias. Quem pode e quem não pode consumir. Quem pode consumir é visto como “cidadão”, os demais são desprezados e entendidos como inúteis. O papa Francisco reforça: "Enquanto não for radicalmente solucionado o problema dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e à especulação financeira, não se resolverão os problemas do mundo. A desigualdade é a raiz de todos os males sociais."

A famosa metáfora do “sapo na panela” ilustra bem o comportamento vigente. A história conta que, se você colocar um sapo em água fervente, ele tentará imediatamente escapar. No entanto, se for colocado em água fria e esquentada lentamente, o sapo não perceberá a mudança de temperatura e acabará cozido. Moral da história: mudanças graduais tendem a passar despercebidas e podem resultar em colapsos.

O filósofo francês Félix Guattari propõe o conceito das "Três Ecologias" para uma ecologia integral: 1) Ecologia Ambiental: Preservar todas as formas de vida que coexistem de forma complementar e interdependente. 2) Ecologia Social: Construir comunidades mais justas e solidárias, entendendo a economia como meio, e não como fim. 3) Ecologia Mental: Promover a saúde mental e a maneira como nos relacionamos com o mundo, além de refletir sobre o propósito que queremos dar à nossa existência finita.

A proposta de uma ecologia integral coloca a vida no centro. A economia deve ser orientada pelos limites da ecologia e colocada a serviço da comunidade de vida. A dignidade humana não pode ser medida pelo consumo, mas pelo bem-viver coletivo. Estamos no decênio decisivo para reverter a catástrofe: ou privilegiamos o cuidado e o bem comum, ou a priorização da velocidade e do acúmulo nos conduzirá, a passos largos, para o abismo.

Vale a reflexão: certa vez, um monge, ao retornar ao mosteiro, cruzou com uma criança abatida pela fome e pelo frio. Ao chegar à igreja, dirigiu-se a Deus em tom de indignação: "Por que o Senhor não faz nada por aquela criança?" Então, um clarão iluminou os céus e Deus respondeu: "Eu fiz você."

Luís Miguel Luzio dos Santos, professor de socioeconomia e ética na UEL

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