Em tempos de discussão sobre os perigos das mudanças no clima e a importância de se preservar áreas verdes, o pesquisador e ex-diretor do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Eustáquio Reis, defende uma teoria diferente da maioria da população. Segundo ele, existem benefícios no desmatamento que precisam ser levados em conta.
O pesquisador causou polêmica durante seu discurso no fórum sobre meio ambiente, que aconteceu no mês de junho, em Goiás, durante o 11º Festival Internacional de Cinema Ambiental (Fica), ao afirmar que a sociedade não poderá abrir mão do avanço sobre áreas preservadas para a produção agropecuária. A FOLHA entrevistou Reis sobre os motivos que o levam a ver a questão ambiental por um ângulo tão diferente.
O senhor fala em desmatamento a favor do desenvolvimento. Mas como analisa os riscos para a floresta? Baseado em quais dados o senhor defende essa ideia?
Defendo o desenvolvimento sustentável, não o desmatamento. Apenas reconheço que em algumas circunstâncias o desmatamento é inevitável como, por exemplo, em certas áreas do norte do Mato Grosso com condições propícias ao cultivo de soja. Naturalmente, existem riscos no desflorestamento, mas creio que, para o cultivo da soja, a extensão das áreas ameaçadas não são catastróficas. O cultivo da soja ocupa parcela relativa muito pequena da área geográfica da Amazônia Legal. Além disso, estaria limitado a regiões com níveis de pluviosidade adequados e, portanto, não ameaçaria grande parte das áreas de floresta ombrófila densa. A pecuária, em contraposição, coloca desafios bem maiores, sejam em termos de extensão ou de classes de vegetação. Minha opinião sobre essas questões baseia-se em estudos sobre os custos e benefícios da agricultura na região, ou seja, a comparação do produto dessas atividades com a exploração sustentável da floresta.
O senhor não acha possível e melhor encontrar alternativas, como o turismo, para o desenvolvimento das regiões a serem preservadas, ao invés do plantio e criação de animais?
A meu ver, existem limitações de mercado tanto para o turismo como para as atividades extrativistas que, portanto, possuem capacidade de gerar empregos, renda e mobilidade social ascendente para as populações pobres das áreas rurais na Amazônia.
Uma vez que vivemos em um país onde há grande diferença de distribuição de renda, é provável que as áreas desmatadas sirvam para gerar renda apenas para algumas pessoas, donas dos latifúndios. Não seria um preço alto a se pagar com pouco retorno para a sociedade local?
O cultivo da soja gera enorme retorno para os habitantes da Amazônia e para os brasileiros em geral, ainda que seja cultivada e, portanto, os lucros diretos sejam apropriados por grandes proprietários. Os benefícios indiretos vêm na forma de atividades de processamento, transporte e comercialização, custo reduzido de obtenção de proteínas, geração de divisas estrangeiras e redução da taxa de câmbio, dessa forma permitindo a importação barateada de máquinas, equipamentos, matérias e bens de consumo importados.
Como o senhor analisa o futuro da Amazônia e da Mata Atlântica?
Assim como em vários outros países (Japão, Estados Unidos, Finlândia etc.), após um longo ciclo histórico de desmatamento, na medida em que a sociedade brasileira atinja níveis mais altos de desenvolvimento, ela começará a recompor tanto a Mata Atlântica como a Floresta Amazônica.
O senhor acha que os ambientalistas exageram quando alertam para os riscos do desmatamento?
Eles tendem a exagerar, apresentando projeções catastróficas que nem sempre estão baseadas em metodologias científicas rigorosas. Veja, por exemplo, as projeções que eram feitas no início dos anos 1990 para a Amazônia. Na maioria das vezes são incapazes de ver os benefícios associados ao desmatamento.
O senhor diz que japoneses e europeus não se arrependeram de desmatar, mas isso aconteceu no passado, quando não se tinha noção dos perigos. Falar em Amazônia e preservação é pensar no futuro mundial. Não seria egoísmo pensar apenas no desenvolvimento econômico brasileiro?
Creio que seria demasiado idealista e, portanto, fadado ao fracasso, pedir às populações carentes do meio rural da Amazônia que se preocupem com o futuro mundial. Para tanto, temos que dar a essas populações condições melhores de vida e educação. O mundo não será destruído. Apenas terá maiores dificuldades para elevar seus níveis de bem-estar e, quero crer que as futuras gerações certamente terão mais recursos tecnológicos e econômicos para enfrentar seus próprios problemas.

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