ECO-92: 10 anos depois
Comemoramos no dia 5 de junho o Dia Mundial do Meio Ambiente. Dez anos após, a ECO-92 ainda é o maior encontro de chefes de Estado e ONGs para debater a questão ambiental do planeta e assumir compromissos (Agenda 21). No entanto, muitas das propostas sugeridas não passaram de intenções. Aumentam as ameaças contra a vida, a insegurança é generalizada, poucas ações concretas foram realizadas para viabilizar o desenvolvimento sustentável.
Segundo o relatório do Worldwatch Institute (a Bíblia do meio ambiente), vivemos hoje um contexto global de imensos desafios. A população do mundo chegou a 6 bilhões, mas num mundo onde 1,2 bilhão de pessoas estão famintas, 1,2 bilhão não têm acesso a água potável e quase 1 bilhão de adultos são analfabetos. A grande questão é que convivemos com carências gritantes, em meio a superabundância de recursos. O desperdício, os excessos, as devastações, tudo isso tem acarretado desequilíbrios descomunais, que vão comprometendo a manifestação da vida, em todos os seus aspectos.
Dez anos decorridos da grande conferência sobre o Meio Ambiente no Rio de Janeiro, constatamos que os governos não tem sido firmes na adoção das medidas necessárias. Muito se protela do que tem de ser feito. Persiste a queixa da falta de recursos. E mais: promover as ações exigidas pelo consenso internacional requer atitudes de coragem que poucos governantes estão dispostos a tomar. Isso porque não apenas contraria fortes interesses de mercado (como a lógica do lucro), como também contraria a mentalidade fortemente hedonista e consumista, que caracteriza os estilos de vida vigente, em todos os países do mundo. O mercado diz o estudo do Worldwatch Institute é um dispositivo extraordinariamente eficaz para alocar recursos e equilibrar a oferta e a procura, porém não tem respeito algum para com os limites de produção sustentável dos sistemas naturais.
É sabido, por exemplo, que vivemos o fim da era dos combustíveis fósseis. Mas e então? Como propor uma mudança no comportamento e padrão de vida, todo baseado no petróleo, sem ser, no mínimo, antipático? Os automóveis a gasolina continuam sendo fabricados aos milhares, e toda uma série de produtos com base no petróleo continuam sendo fabricados e vendidos, em grandes proporções. Pouco ouvimos falar de municípios que buscam empreender e viabilizar projetos alternativos de utilização da energia, como a eólica ou a solar. O argumento de sempre é que tais medidas são muito caras. Na realidade, o que falta mesmo é vontade política, garra para dar um salto qualitativo. E tal disposição deveria começar pelos governos municipais.
É claro que o governo sozinho não tem força para promover as mudanças necessárias. É necessário o envolvimento de toda a sociedade. Temos que tornar a globalização um extraordinário processo de solidariedade e compartilha, e não um sistema opressor, individualista e excludente. A sociedade organizada, pode, sim, fazer valer a sustentabilidade. Tomara a Deus que nesta primeira década do milênio possamos dar passos mais acertados. Seremos amanhã o que fizermos hoje. O planeta quer um sim à vida.
VALMOR BOLAN É doutor em Sociologia e diretor-geral da Faculdade Editora Nacional (Faenac)





