Recente levantamento feito pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), mostrou: os alunos que ingressaram em cursos superiores lançando mão da educação a distância tiveram melhor desempenho no Enade (exame do MEC que avalia o ensino superior) do que os estudantes que fazem o mesmo curso da maneira tradicional. O levantamento aponta que os alunos de cursos a distância se saíram melhor em 7 das 13 áreas onde essa comparação é possível.
Em entrevista à FOLHA, o professor Dilvo Ristoff, diretor de Avaliação e Estatísticas da Educação Superior do Inep, contextualiza a modalidade de ensino e contesta os temores acerca do ensino antagônico ao presencial. ''Como os dados dos dois últimos Enades parecem sugerir, não deverá tardar o dia em que os rankings das universidades brasileiras incluirão a Universidade Aberta do Brasil entre as melhores do país''.
Os recentes resultados consolidam a educação a distância no Brasil. Contudo, não faltam opositores. As críticas não vêm de hoje, correto?
Exato. No Brasil, apesar das inúmeras experiências bem sucedidas em outros países, como a Alemanha, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e Cuba, por exemplo, o ensino a distância continua sob fogo cruzado, com o argumento de que vai piorar a qualidade. Alguns até reconhecem o seu efeito democratizante ao oportunizar acesso a todos os que, por uma razão ou outra, não puderam ou não tiveram condições familiares ou financeiras para frequentar um curso presencial, mas temem que a modalidade traga ainda mais dificuldades a um sistema educacional com problemas suficientes.
Mas esse temor é justificável?
Não, é injustificado. Os dados dos dois últimos Enades mostram que os estudantes da educação a distância, ao contrário do que se imagina, têm desempenho médio superior aos da educação presencial. Destaque-se que, entre os ingressantes, os estudantes de educação a distância obtiveram desempenho superior em nove das 13 áreas participantes. Quando se observa a média geral, somando-se os ingressantes e concluintes, e atribuindo-se os respectivos pesos previstos para as distintas partes da prova, tem-se um quadro um pouco diferente, embora ainda ligeiramente favorável aos estudantes de educação a distância. A cada dia fica mais evidente que a educação a distância, pelas novas metodologias e técnicas didático-pedagógicas à sua disposição com o advento das novas tecnologias, facilita a apropriação dos conteúdos que devem ser estudados nas várias áreas do conhecimento.
Essa influência é positiva, então?
Fica evidente que o ensino a distância influencia positivamente, de modo marcante, a modalidade presencial, racionalizando a organização dos currículos, disponibilizando novas formas de apresentação de conteúdos, desenvolvendo novas técnicas de motivação da aprendizagem.
Há décadas se fala sobre o conceito da Open University. Hoje ele é consolidado?
Há 38 anos, quando a criação da Open University foi anunciada, um membro do parlamento britânico, chamado Iain Macleod, chamou o projeto de ''uma grandessíssima bobagem''. Jennie Lee, encarregada, pelo então primeiro-ministro britânico Harold Wilson, de desenvolver o Projeto, sabia que a resistência estava muito além do parlamento: estava entre servidores públicos e especialmente dentro da Academia. Mesmo Walter Perry, designado para ser o primeiro Vice-chanceler da Instituição, confessou que, no início, pensava que este importante projeto de inclusão social não passasse de ''jogo político'' para impressionar as massas. Foi preciso conhecer o projeto profundamente para convencer-se do contrário.
E hoje a Open University convenceu os céticos?
Sim, hoje, quatro décadas mais tarde, a Open University parece ter convencido a maioria dos céticos, mostrando ser possível combinar a excelência acadêmica e a inclusão: ela tornou-se desde 2004 a quinta universidade no ranking da qualidade do ensino superior britânico, ficando à frente da prestigiosa Oxford University.
E se a educação a distância brasileira seguir a trilha da Open University?
Como os dados dos dois últimos Enades parecem sugerir, não deverá tardar o dia em que os rankings das universidades brasileiras incluirão a Universidade Aberta do Brasil (UAB) - inspirada num programa iniciado há seis anos pelo governo do Rio, que funciona como um consórcio formado por universidades e centros federais que oferecem cursos a distância - entre as melhores do país.
Teremos então dado uma resposta contundente à exclusão e mais um passo significativo rumo ao que todos desejamos: combinar a qualidade acadêmica com a democratização do acesso.

mockup