Há cerca de um ano, pouco ou quase nada se falava sobre a problemática da água em São Paulo, mas já havia indícios de que uma potencial crise hídrica poderia atingir a maior e mais populosa cidade brasileira. O relatório 20–F da Sabesp, de 2012, afirmava que há anos observava-se a redução nos níveis pluviométricos em várias regiões do País. Diversas instituições ambientalistas também alertavam sobre a falta das chuvas, fruto das mudanças climáticas e desmatamentos que prejudicam o ciclo da água.
Em 2013, já não havia chovido o suficiente sobre os mananciais que abastecem a capital paulista e sua região metropolitana. E em janeiro de 2014 o volume do Sistema Cantareira atingiu alarmantes 22,2%. Hoje os resultados das atitudes não tomadas frente a esses alertas da natureza - e de nossa conduta ineficaz para a proteção das áreas naturais que nos fornecem água - estão sendo sentidos, por enquanto, por cerca de 20 milhões de pessoas. A crise hídrica apresenta-se com um ciclo vicioso que afeta a todos e impõe até mesmo mudanças culturais no modo como vivemos e nos relacionamos com a água.
Nesse meio tempo, a crise hídrica deixou de ser paulistana e tornou-se uma realidade para todo o Sudeste brasileiro – com efeitos em diversas outras regiões do país. Reservatórios de abastecimento público, como o Sistema Cantareira, chegaram à reserva técnica, popularmente chamada de "volume morto". Casas, indústrias e comércios de algumas cidades passaram a conviver com a realidade da escassez e o medo do racionamento. O cenário é desanimador e extremamente delicado, mas parece que nos acostumamos a viver no limite. O que mais falta acontecer para que atitudes assertivas sejam tomadas por todos os setores da sociedade, cada um com o que lhe cabe?
Não podemos nos esquecer também do alto índice de áreas desmatadas nas regiões do entorno dos reservatórios que abastecem São Paulo: cerca de 70% da vegetação nativa foi suprimida na bacia hidrográfica e nos mananciais que integram o Sistema Cantareira. Essa realidade repete-se por todo o país e compromete as nascentes e também a quantidade e a qualidade da água nesses locais. A cobertura florestal protege as nascentes e auxilia na absorção de água das chuvas, que infiltra no solo até atingir os lençóis freáticos. Sem floresta, não há água.
Essa crise ocorre cerca de dois anos após a aprovação do Novo Código Florestal, que reduziu a proteção nas margens dos rios em propriedades rurais. Agora, após esse retrocesso histórico, paradoxalmente, a maior cidade do país passa por uma das maiores crises hídricas de sua história. Não seria um bom momento para repensarmos sobre como estamos lidando com a temática ambiental no Brasil?
A resposta da natureza aos cuidados escassos que temos tido com nossas áreas naturais chegou. O Brasil está vivendo no conta-gotas. Agora, é preciso que o poder público assuma efetivamente o controle da situação: esclarecendo a população sobre como se pode economizar água, cobrando de empresas e indústrias técnicas adequadas de gerenciamento hídrico – evitando desperdícios e investindo em reuso – e principalmente fazendo sua parte. Fazer sua parte, de verdade, é simples: promover a restauração da vegetação em áreas estratégicas, fiscalizar efetivamente para frear o desmatamento nesses locais e melhorar os sistemas de captação e distribuição de água. Mais que São Pedro acertar na mira, os brasileiros precisam que as políticas públicas de proteção ao patrimônio natural sejam certeiras. Se não forem, a resposta da natureza será.

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