É preciso recompor a renda do agricultor
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de março de 1997
João Paulo Koslovski 
São várias as entidades, inclusive governamentais, que apresentam estatísticas do desempenho da agropecuária nos últimos anos, comprovando que apesar do significativo aumento da produtividade das principais explorações, a renda do setor caiu brutalmente. Vários foram os fatores que contribuíram para esta transferência de recursos da agricultura para outros segmentos da sociedade. As nossas dificuldades começam com a política externa, articulada principalmente por países do primeiro mundo, que impõem todas as formas de barreiras para evitar a entrada de produtos brasileiros, dissimulando assim subsídios aos seus agricultores. Outras vezes exerceram forte pressão, mudando as regras para não perderem a hegemonia sobre os mercados.
No nível interno, sucessivos planos econômicos implementados pelo governo sempre tiveram a agricultura como bode expiatório na consecução das metas, principalmente quanto ao controle da inflação. Os preços agrícolas ficaram congelados enquanto que os componentes do custo de produção se elevaram a ponto de inviabilizar algumas atividades agrícolas.
Enquanto isto os juros dos financiamentos, desatrelados dos índices de correção dos preços dos produtos agrícolas, contribuíram decisivamente para comprometer a atividade.
Apesar das promessas de campanha de apoio à agricultura feitas pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, o setor amargou perdas extremamente perigosas nos últimos dois anos. O custo exagerado dos financiamentos agrícolas, atrelados à TR no começo do governo, e a demora na adoção de uma política mais realista de juros, contribuíram para agravar ainda mais o setor. O descompasso entre os preços mínimos e o custo dos financiamentos sinalizava para problemas iminentes, que acabaram ocorrendo.
Embora com atraso, o governo reduziu os encargos financeiros e aprovou a securitização que, no entanto, não atendeu adequadamente a todos os setores, e começou a delinear uma política mais centrada no mercado, induzindo os produtores a criarem alternativas para sobreviver. A saída abrupta do Estado no amparo de uma política de preços mínimos e de crédito preocupam sobremaneira diante das dificuldades de comercialização, o que agrava a descapitalização sem precedentes verificada no campo.
Mas ainda é possível recompor a renda do agricultor, evitando uma inadimplência generalizada no setor. Como? Primeiro, o governo precisa reconhecer que os investimentos feitos na agricultura geram grande número de empregos, contribuem para evitar a famigerada pressão inflacionária e reduzem o desequilíbrio da balança comercial, hoje uma séria preocupação das autoridades monetárias.
Segundo, para manter o homem no campo é preciso investir na infra-estrutura básica das cidades do interior: saúde, educação, melhoria de estradas, armazéns, agroindústria e transporte. Hoje, diante do sucateamento da agricultura e sem perspectiva de uma política agrícola duradoura que sinalize alguma renda, o campesino se sente cada vez atraído pelas melhores condições de vida das grandes cidades, abandonando a atividade agrícola...
Terceiro, é preciso que as propostas oferecidas pelos segmentos que compõem o Fórum Nacional da Agricultura sejam, efetivamente, implementadas o mais rápido possível pelo governo federal, pois elas espelham com profundidade o que acontece no campo, enfocando as necessidades do agribusiness brasileiro.
Quarto, se queremos ser competitivos frente aos países do primeiro mundo, é preciso concretizar a reforma fiscal e tributária sobre os produtos agrícolas, olhando com carinho o problema Custo Brasil. Temos certeza da nossa excelente condição de competitividade dentro da porteira; a competitividade fora da porteira, no entanto, está condicionada com a definição de uma política agrícola firme pelo governo, com medidas isonômicas às adotadas pelos países concorrentes.
Reconhecemos que não é uma tarefa fácil recompor a renda do agricultor e da agricultura. No entanto, é uma condição para a sua sobrevivência. O próprio presidente FHC reconheceu que está em débito com a agricultura e a hora de quitar essa dívida é agora. O setor, aflito, aguarda medidas concretas que possam recuperar sua importância econômica.


