São várias as entidades, inclusive governamentais, que apresentam estatísticas do desempenho da agropecuária nos últimos anos, comprovando que apesar do significativo aumento da produtividade das principais explorações, a renda do setor caiu brutalmente. Vários foram os fatores que contribuíram para esta transferência de recursos da agricultura para outros segmentos da sociedade. As nossas dificuldades começam com a política externa, articulada principalmente por países do primeiro mundo, que impõem todas as formas de barreiras para evitar a entrada de produtos brasileiros, dissimulando assim subsídios aos seus agricultores. Outras vezes exerceram forte pressão, mudando as regras para não perderem a hegemonia sobre os mercados.
No nível interno, sucessivos planos econômicos implementados pelo governo sempre tiveram a agricultura como ‘‘bode expiatório’’ na consecução das metas, principalmente quanto ao controle da inflação. Os preços agrícolas ficaram congelados enquanto que os componentes do custo de produção se elevaram a ponto de inviabilizar algumas atividades agrícolas.
Enquanto isto os juros dos financiamentos, desatrelados dos índices de correção dos preços dos produtos agrícolas, contribuíram decisivamente para comprometer a atividade.
Apesar das promessas de campanha de apoio à agricultura feitas pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, o setor amargou perdas extremamente perigosas nos últimos dois anos. O custo exagerado dos financiamentos agrícolas, atrelados à TR no começo do governo, e a demora na adoção de uma política mais realista de juros, contribuíram para agravar ainda mais o setor. O descompasso entre os preços mínimos e o custo dos financiamentos sinalizava para problemas iminentes, que acabaram ocorrendo.
Embora com atraso, o governo reduziu os encargos financeiros e aprovou a securitização que, no entanto, não atendeu adequadamente a todos os setores, e começou a delinear uma política mais centrada no mercado, induzindo os produtores a criarem alternativas para sobreviver. A saída abrupta do Estado no amparo de uma política de preços mínimos e de crédito preocupam sobremaneira diante das dificuldades de comercialização, o que agrava a descapitalização sem precedentes verificada no campo.
Mas ainda é possível recompor a renda do agricultor, evitando uma inadimplência generalizada no setor. Como? Primeiro, o governo precisa reconhecer que os investimentos feitos na agricultura geram grande número de empregos, contribuem para evitar a famigerada pressão inflacionária e reduzem o desequilíbrio da balança comercial, hoje uma séria preocupação das autoridades monetárias.
Segundo, para manter o homem no campo é preciso investir na infra-estrutura básica das cidades do interior: saúde, educação, melhoria de estradas, armazéns, agroindústria e transporte. Hoje, diante do sucateamento da agricultura e sem perspectiva de uma política agrícola duradoura que sinalize alguma renda, o campesino se sente cada vez atraído pelas melhores condições de vida das grandes cidades, abandonando a atividade agrícola...
Terceiro, é preciso que as propostas oferecidas pelos segmentos que compõem o Fórum Nacional da Agricultura sejam, efetivamente, implementadas o mais rápido possível pelo governo federal, pois elas espelham com profundidade o que acontece no campo, enfocando as necessidades do agribusiness brasileiro.
Quarto, se queremos ser competitivos frente aos países do primeiro mundo, é preciso concretizar a reforma fiscal e tributária sobre os produtos agrícolas, olhando com carinho o problema ‘‘Custo Brasil’’. Temos certeza da nossa excelente condição de competitividade dentro da porteira; a competitividade fora da porteira, no entanto, está condicionada com a definição de uma política agrícola firme pelo governo, com medidas isonômicas às adotadas pelos países concorrentes.
Reconhecemos que não é uma tarefa fácil recompor a renda do agricultor e da agricultura. No entanto, é uma condição para a sua sobrevivência. O próprio presidente FHC reconheceu que está em débito com a agricultura e a hora de quitar essa dívida é agora. O setor, aflito, aguarda medidas concretas que possam recuperar sua importância econômica.

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