A Fundação Getúlio Vargas (FGV) analisa a educação brasileira, em sua revista, e afirma que, às portas do novo milênio, em que o conhecimento é o fator fundamental de desenvolvimento, ainda temos no Brasil uma legião de analfabetos e subanalfabetizados. Todos os anos faltam vagas para crianças nas escolas públicas, levando os pais ao vexatório ritual de terem de ficar dias e noites acampados em filas na frente dos estabelecimentos.
As filas às portas das escolas são o inquestionável reflexo de uma realidade demográfica: é a maior geração de estudantes que o Brasil já teve. A tradição rotulou o brasileiro com o signo da imprudência e da improvisação. Apesar do comprovado esforço do governo federal, esta ainda longe de ser solucionada a ineficiência do nosso ensino fundamental.
De cada 1.000 alunos matriculados na 1ª série de uma escola pública, apenas 43 se formarão dentro do tempo de oito anos. Na média, haverá a demora de 12 anos para a obtenção do diploma. No que concerne ao percentual de crianças de 7 a 14 anos, fora da escola, existem divergências de números. Para o IBGE, o ano letivo teve início com mais de 3 milhões de crianças sem vagas nas escolas. Pelos cálculos do Ministério da Educação, esse número seria de 1,8 milhão.
A tais crianças, vão somar-se outros milhões de alunos, que abandonarão as escolas e mais de 3 milhões de reprovados crônicos. Daí, estimarmos em torno de 10 milhões o número de crianças sem educação, em 1998.
Quanto ao analfabetismo, ele vem diminuindo no Brasil, lentamente. Há 10 anos, cerca de 17% da população brasileira não sabia ler nem escrever um texto simples. No ano passado, a taxa diminuiu, chegando em torno de 15%. Contudo, o número alcançaria 30% da população brasileira, se levássemos em conta os analfabetos funcionais (pessoas que não conseguem compreender textos do cotidiano ou resolver questões matemáticas elementares).
O percentual é humilhante, mesmo para os padrões latino-americanos. Nos vizinhos argentinos, a taxa de analfabetos é de 4%, no Chile 3%, no Uruguai 2,8% e no Paraguai 8%. A nossa posição, conforme o economista lb Teixeira, da FGV, é similar à da Índia, China, México e Nigéria.
Conforme se infere do artigo 60 das Disposições Transitórias da Constituição de 1988, o analfabetismo deveria acabar este ano no Brasil. No entanto, não é dispositivo constitucional o erradicador do analfabetismo. Com mais de dois séculos de existência, a constituição americana não menciona a questão educacional. Contudo, nos EUA se concentram as melhores escolas e universidades, museus e bibliotecas.
Portanto, somente com a plena mobilização da sociedade brasileira, teremos condições de modificar essa situação. Diversas empresas já vêm divulgando as suas ações no campo educacional. Na França, as organizações econômicas são compelidas à publicação anual dos seus balanços sociais, desde 1977.
Nas escolas, encontra-se o futuro do Brasil. É indispensável redimirmo-nos dos erros do passado, investindo tudo na obra da educação nacional. Mobilizemos as associações de classe, os clubes desportivos, as igrejas, as forças armadas, os clubes de serviço. Façamos escolas sem luxo, sob barracas ou à sombra das árvores. É preciso, também, edificar o professor e dignificá-lo.
A sociedade do conhecimento, paradigma do próximo milênio, exige um nível máximo de base educacional para que o indivíduo se torne operacional, adverte o economista Paulo Guedes.
Longe de construir um ideal utópico, o terceiro setor (entidades criadas pela iniciativa privada de cidadãos e empresas, com o objetivo de prestação de serviços ao público) poderá oferecer os meios adicionais para o trabalho, pela diminuição das desigualdades da educação e do analfabetismo.
Com a aprovação da Lei do Voluntariado, milhares de entidades sem fins lucrativos e cidadãos comuns poderão prestar serviços no setor educacional. A credibilidade do trabalho voluntário é unânime (92% dos entrevistados pela pesquisa Data Folha declararam acreditar nesse ato solidário).
A Igreja católica está empenhada no sentido de consagrar a Campanha da Fraternidade deste ano à educação. Educação é, também, a prioridade do governo Fernando Henrique Cardoso, neste ano de eleição. A educação deve ser, portanto, a prioridade absoluta, entre todas as prioridades nacionais.

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