'É preciso democratizar a estrutura do futebol brasileiro'
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sábado, 30 de maio de 2015
Celso Felizardo<br> Reportagem Local 
Na última quarta-feira, autoridades suíças e norte-americanas prenderam sete dirigentes da Fifa em um hotel em Zurique, na Suíça. Entre eles, o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), José Maria Marin. O maior escândalo do futebol mundial, no entanto, não foi capaz de tirar Joseph Blatter do poder. Ele foi eleito para o quinto mandato à frente da Federação Internacional de Futebol na sexta-feira.
Depois de um ano de investigações para o livro "O Lado Sujo do Futebol", editado pela Editora Planeta, o jornalista Luiz Carlos Azenha ergue a indefectível placa de "eu já sabia" para o FBI, o órgão responsável pela devassa na Fifa. Em entrevista à FOLHA, o bauruense ganhador de dois prêmios Vladimir Herzog analisa o cenário mundial de corrupção no futebol e prevê consequências para Blatter e outros cartolas brasileiros. Azenha, que assina o livro com Amaury Ribeiro Junior, Leandro Cipoloni e Tony Chastinet, expõe o uso do futebol para o enriquecimento ilícito. O jornalista define a estrutura da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) como coronelista, porque dá apoio às federações que votam na eleição da entidade.
Para Azenha, o encarecimento do ingresso nas confortáveis arenas e a falta de mais equipes competitivas são reflexos da corrupção que, aos poucos, vão afastando o interesse do torcedor. Ele defende uma mudança radical na estrutura do futebol brasileiro, em que os pequenos clubes pudessem disputar em nível de igualdade com os grandes. Neste processo, Azenha ataca a relação entre os direitos de transmissão e as empresas de marketing.
Como você recebeu as últimas notícias do escândalo na Fifa?
Para nós [autores] que mergulhamos nisso por quase um ano, nada é novidade. Sabíamos que existia uma investigação em andamento. A única surpresa foi a forma como foi a ação envolvendo o FBI, na véspera de uma eleição da Fifa. Se se confirmar o que foi dito pelos promotores americanos, que isso é apenas o início da investigação, acredito que vamos chegar, eventualmente, ao nome de Ricardo Teixeira, que já estava entre os investigados, embora não tenha sido formalmente mencionado; certamente ao João Havelange e, possivelmente, ao próprio Joseph Blatter, pois se trata da mesma turma. Seria surpreendente descobrir que Blatter é uma virgem em uma casa de prostituição.
Acredita que se trata de uma continuidade do esquema do ex-presidente da Fifa João Havelange?
É muito parecido com aquele que o promotor da Suíça já havia desvendado, que levou à renúncia de Ricardo Teixeira da presidência da CBF, que demonstrou que o Teixeira e o João Havelange haviam recebido milhões de francos suíços e dólares em propina. Quando Havelange assumiu a Fifa, ele tinha um objetivo de se perpetuar no poder e tirou o futebol do controle dos europeus, pois entendeu que seria interessante levar o futebol aos outros continentes. O que se pode dizer que é a parte positiva da ação dele. Descentralizou o futebol contando com grandes patrocinadores. Mas, ao mesmo tempo, entendeu que daria para fazer do futebol um grande negócio. Essa é a filosofia da Fifa desde que o Havelange assumiu (em 1974) e que continuou com o Blatter, que foi secretário-geral dele.
O "Lado Sujo do Futebol" anteviu muito do que ocorreu esta semana?
É, foi um ano de pesquisa. Como éramos em quatro, cada um cuidou de um setor. O Amaury Ribeiro Junior fez todo o levantamento nos cartórios no Rio de Janeiro e São Paulo atrás de documentos para saber especialmente sobre a vida do Ricardo Teixeira, que era o foco de nosso livro. Na época, Teixeira era o presidente da CBF. O livro foca na fonte número 1 de dinheiro do futebol, que é a relação entre direitos de transmissão, empresa de marketing e como isso gerou a corrupção que a gente mostra. Essa investigação do FBI aponta por esse caminho. Onde eles acharam as tramoias? Nessas relações. É ali o foco, é onde está o dinheiro. Ficamos satisfeitos, porque apontamos o mesmo caminho que é hoje o centro da questão financeira do futebol.
Quais os impactos da corrupção no futebol e para sociedade em geral?
Isso tem um lado muito negativo, que é priorizar o dinheiro e afastar o futebol do público. Aqui no Brasil, por exemplo, os ingressos estão cada vez mais caros nas luxuosas arenas. Estão afastando o povão dos estádios. E no processo para trazer o dinheiro para dentro do futebol, eles miram também o enriquecimento pessoal. Na venda dos direitos de transmissão, na venda dos jogos da seleção, sempre tem uma propina no meio. No Brasil, a renda principal, que é da televisão, é concentrada nos grandes: Flamengo, Corinthians. O restante fica a ver navios. Essa é a função da CBF, dessa cartolagem toda: de modernizar o futebol para que ele tenha expressão em todo o Brasil, que é um país continental. Mas isso não é o que se vê. O que há é uma CBF rica, com uma sede luxuosa, de primeiro mundo, com grandes patrocinadores para a seleção. Por outro lado, temos estádios vazios, clubes pobres. Futebol do interior de São Paulo sendo transmitido para o interior do Piauí.
Os escândalos podem implicar em uma menor identificação do brasileiro com a seleção ou com os clubes?
Nós já temos a derrota do 7 a 1, que é uma vergonha dentro do campo e, agora, temos uma vergonha fora do campo também. Não sei se exatamente terá esse reflexo. Eu acho que as pessoas vão acordar um pouco em relação ao futebol. Tem tanta coisa errada com o futebol no Brasil, por exemplo. Ele é completamente desorganizado que só pensam em ganhar dinheiro, em fazer negociatas de forma que eu duvido que o brasileiro depois desse escândalo vá se aproximar mais do futebol. A não ser que mude a estrutura.
Como mudar essa estrutura?
Seria necessário uma mudança muito profunda. Eu morei quase 20 anos nos Estados Unidos. Se você pegar a lista dos campeões americanos de beisebol, de futebol americano e de basquete a gente nota uma grande diferença, uma grande mudança de ano a ano. Basta pegar os últimos dez campeões dessas modalidades, é como se o Londrina fosse campeão este ano, no ano que vem o Goiás, no outro o Corinthians, depois o Flamengo, o Avaí, o ABC de Natal. Por que isso? Porque os torneios americanos têm o objetivo de promover um campeonato equilibrado. Lá nos EUA as ligas cuidam para que os clubes ganhem o mesmo valor pela exposição que eles têm na televisão. Eles são organizados em uma liga e dividem igualmente os valores, para que todos tenham elenco, que haja um campeonato equilibrado. Esta deveria ser a função de uma federação, já que nós não temos uma liga formada por esses clubes aqui no Brasil, essa deveria ser a função da CBF como organizadora do futebol brasileiro. Ela não está aqui para promover futebol? Ela deveria organizar o futebol brasileiro de maneira em que houvesse um equilíbrio. É o equilíbrio que faz com que o torcedor se interesse.
A modernização do futebol pode significar um retorno às origens?
Domingo de manhã, as pessoas estão lotando o estádio do Juventus, na Rua Javari, aqui em São Paulo. É o futebol à moda antiga. Sem grandes craques, o pessoal vai lá se divertir. Existe um desejo das pessoas pelo futebol de antes. Mas não é votar ao passado, é ter o futebol mais próximo da gente. Eu sou de Bauru, uma cidade que tem 400 mil habitantes e o time, Noroeste de Bauru, está na quarta divisão paulista e não tem nenhuma condição de sair disso porque não tem renda nenhuma, apesar de ser de uma cidade razoavelmente grande. Temos que ter bons times espalhados pelo Brasil. Santa Catarina é uma exceção, colocou quatro clubes na primeira divisão. Mas é uma exceção. Quando um menino do interior do Paraná torce para o Barcelona as pessoas acham normal. No entanto, é evidente que há uma coisa muito errada ele não torcer para o Londrina, ou para o Operário de Ponta Grossa, que é o atual campeão paranaense. Futebol no passado era uma coisa da sua vida, do seu cotidiano. Você torcia pelo clube da sua cidade ou que tinha uma relação com você. Hoje não. Isso ocorre porque esses cartolas estão preocupados em enriquecer e pouquíssimos preocupados como o futebol. Só não acabam com o futebol brasileiro de uma vez porque acabariam com a fábrica de ovos de ouro, a formação de atletas.
Há esperança de renovação dentro da CBF?
Tenho esperança no Bom Senso, (movimento fundado em 2013 com objetivo de reformulação profunda no futebol). É preciso democratizar a estrutura do futebol brasileiro. Tem que aumentar o número de votantes na CBF. Essa estrutura é basicamente coronelista. A CBF que dá apoio as federações que votam na eleição da entidade. Então, elas são dependentes financeiramente do presidente da CBF. É preciso dar mais votos aos jogadores, é preciso limitar o número de reeleições. Existem algumas frentes que dão esperança de mudança.


