É pouco futebol...
É pouco futebol...
J. Roberto Whitaker Penteado
Antes de que V. decida mudar de coluna áá-porque acha que já leu tudo sobre a Copa do Mundo da França - proponho imodestamente que deva continuar a leitura, pois este artigo trata de algo diferente dos demais.
Entenda que não dá, realmente, para tratar de outra coisa. Estamos a pouco mais de uma semana do início da Copa do Mundo, na França, e ninguém, no Brasil, consegue pensar em mais nada, a não ser na bola que vai rolar - redonda ou quadrada -no novo e reluzente gramado de St. Denis, no próximo dia 10.
Enquanto isso, o que será que pretendem esses surreais cartolas que assolam o nosso futebol, ao fazer a nossa seleção jogar - em plena Paris - contra o time de Andorra? Andorra, se V. não sabe, é um país minúsculo, situado nas montanhas entre a Espanha e a França, cuja população total é cinco vezes menor do que a da cidade de Rio Branco, capital do Estado do Acre. Cujo time deve ser muito melhor que o de Andorra. Talvez eles queiram matar o mundo de rir. É, talvez seja isso mesmo: um interregno humorístico, antes de as coisas ficarem realmente sérias... Já imaginou se a seleção brasileira perder da República de Andorra, sete dias antes de jogar sua partida inaugural?
Mas a dura verdade é que, para um jornalista, é preferível ter um assunto - qualquer assunto, por mais risível que seja, como um jogo-treino da seleção mais poderosa do mundo contra um país quase inexistente - do que o vazio desespero de não ter assunto nenhum, diante do compromisso de preencher, com fatos e comentários, minutos, horas e páginas e mais páginas para rechear comerciais e campanhas já vendidos - e até pagos - pelos patrocinadores.
Esta é a áspera realidade que se vem constituindo no dia-a-dia dos veículos de comunicação, nessas últimas semanas. A Copa é um grande acontecimento esportivo. Possivelmente o maior, para maioria dos países (leia-se mercados) envolvidos nela. Concretamente, arrebata corações e mentes de bilhões de pessoas. Muitas - como você e eu, leitor amigo, e tantos outros - que chegam a integrar o tema às suas vidas e agendas. Comercialmente, mobiliza bilhões de dólares, principalmente em atividades promocionais e publicitárias, num espaço de tempo relativamente curto. Tudo isso necessita - exige - tempo e espaço na mídia, literalmente para preencher os muitos vazios entre os anúncios, que são muitos. Mas o que há, de fato, para relatar? Exatamente cento e doze partidas de futebol, que se realizam nos 32 dias que decorrem entre 10 de junho - abertura -e 12 de julho - data da final. É pouco.
Mesmo incluindo todos os suspenses anteriores às partidas, suas consequências felizes ou infelizes e alguns lances inesperados relacionados a elas, é pouco assunto para muita mídia. E para muita expectativa de tantos consumidores, transformados, no período, em sequiosos leitores e telespectadores.
É por essa razão, principalmente, que estamos todos condenados a ler, pela milhonésima vez, que Zagallo está confiante em uma boa exibição do Brasil na estréia; que Romário considera Dunga um bom companheiro de quarto; que o mesmo Romário está com uma dorzinha na perna e não quer treinar forte - isso dito durante uma conferência de imprensa, concedida pelo jogador a centenas de profissionais da notícia.
São, contudo, falsas notícias, falsos alarmes, dramas falsos. Cevada pela publicidade, a mídia transformou-se num verdadeiro monstro, insaciável por histórias, muitas histórias e assuntos, entrevistas, declarações, reportagens - tudo o que possa atrair, ainda que fugazmente, a atenção desse público verdadeiramente respeitável pelo tamanho.
Mas precisa ser assim?
Acho que não. Como dizia Bernard Shaw, falta quem pense no que ainda não foi pensado e se faça a pergunta: por que não? Por que não estimular tantos bons jornalistas a usar suas imaginações para perseguir pautas paralelas ao que se passa (mais das vezes não se passa) na concentração? Por que não criar um torneio-início com as seleções que não se classificaram - como a da República Tcheca (terceira no ranking da FIFA), a de Portugal ou do Uruguai? Tanto dinheiro que está rodando vale, por certo, alguns esforços de imaginação. Ou o respeitável público vai acabar desligando os seus olhos e seus ouvidos.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de propaganda e Marketing (Rio de Janeiro)





