E por falar em silicone...
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de fevereiro de 1997
Fabiane N. Schnaid 
Mais de 300 mil mulheres que fizeram implantes de silicone nos seios antes de 1º de abril de 1993, se candidataram à maior indenização da história para danos provocados por um produto. A indenização proposta pelas principais empresas fabricantes de silicone, como a Dow Corning, subsidiária da Dow Chemical, Myers-Squibb, 3M e Union Carbide atingiu US$ 4,2 bilhões.
A polêmica do silicone começou em 1992, quando os implantes para fins estéticos foram proibidos pela FDA (Food and Drug Administration) nos E.U.A. Os 25 mil processos que bateram nos tribunais americanos contra os fabricantes de próteses, resultaram numa class action (denominada Global Settlement) ação coletiva por meio da qual os fabricantes e fornecedores de próteses propõem indenizar mulheres que apresentam problemas de saúde provocados pelo implante e as que temem complicações futuras.
A vantagem do acordo para essas megaempresas é óbvio: nos EUA existem cerca de 25 mil processos individuais que acusam problemas relacionados ao uso de próteses mamárias de silicone - sendo 11 mil contra a Dow Carning. Levadas adiante, essas disputas podem representar entre US$ 1,1 e US$ 1,2 milhão só para os custos judiciais.
Também para as portadoras de implantes, especialmente aquelas que não teriam condições de financiar uma ação individual nos EUA, o acordo representa uma (senão a única) solução viável para o problema. Tamanha foi a adesão de mulheres do mundo inteiro ao Acordo Global - dentre as quais cinquenta londrinenses - que os pedidos excederam sensivelmente os mais de 4 bilhões de dólares congregados pelos fabricantes de silicone, por determinação do juiz da Corte Norte Americana do Estado do Alabana, com o escopo de fazer frente às indenizações.
A necessidade de mais dinheiro para suplantar aquela quantia e a crescente ameaça de novas condenações judiciais, como a que determinou o pagamento de 60 milhões de dólares a duas mulheres no Estado do Texas, EUA, a título de indenização por problemas de saúde advindos do uso do silicone - a Dow Corning - o maior fabricante mundial de produtos feitos de silicone e substâncias derivadas - requereu um pedido de reorganização financeira perante a Vara de Falências e Concordatas dos Estados Unidos de Midland, em Michegan, com base na lei federal que regula tal procedimento naquele país.
Recentemente, recebemos instruções da United States Bankruptcy Court for the Easten District of Michigan, Northem Division, possibilitando a preservação, na ação falimentar, dos direitos das clientes que, sob nosso patrocínio, ingressaram no Acordo Global.
Enquanto se discute se o silicone prejudica ou não a saúde, a busca por um substituto à altura do milagre (ilusório?) que o produto representa para a cirugia cosmética e reparadora moderna - financiada por laboratórios e empresas que faturam cifras inimagináveis com o fabrico de próteses - e, a inegável realidade que atormenta milhares de mulheres portadoras de implantes mamários de silicone - tais como o endurecimento da mama, ruptura intra ou extracapsular da prótese, dor localizada, parestesias, hematomas, seromas e infecções, entre outras - vêm levando os cirurgiões plásticos a testar substâncias alternativas. Três clínicas espanholas (em Madrid e Barcelona) já começaram a implantar próteses de mama recheadas com óleo de soja refinado.
Segundo entrevista com o diretor da Clínica Planas de Barcelona, Espanha - Dr. Jaime Planas - publicada pelo jornal Catalão La Vanguardia, a primeira vantagem do óleo de soja refinado é que não apresenta qualquer possibilidade de causar efeitos secundários caso ocorra o rompimento da prótese e o líquido entre em contacto com o corpo da paciente. O médico espanhol explica que há mais de 50 anos este óleo é utilizado em injeções intramusculares e nunca causou qualquer problema. Além do que, segundo o especialista, o óleo de soja tem uma composição semelhante ao da gordura humana, e o organismo é capaz de metabolizar e eliminá-lo totalmente, em caso de rompimento da prótese. Já o silicone é um material sintético e, por conseguinte, difícil de ser eliminado pelo corpo humano.
Ademais, de acordo com o noticiado pelo periódico espanhol, o óleo de soja refinado é totalmente transparente ao raio X, facilitando a realização de mamografias para controlar eventual reprodução de câncer, em alguns casos responsável pela extirpação total da mama (mastectomia). O silicone, ao contrário, é opaco e entre outras desvantagens, requer radiografias de vários ângulos da mama, quando se faz necessário investigar o surgimento de um tumor.
Há três anos, 200 mulheres em várias partes do mundo vêm recebendo este novo tipo de implante, sem que haja sido constatado qualquer problema. Os resultados estão sendo avaliados por comissões científicas radicadas na Itália, Espanha, Grã-Bretanha, Grécia, França e Canadá.
O detalhe curioso da nova técnica fica por conta de um pequeno chip inserido na prótese que, mediante o uso de um aparelho leitor, permite reconstituir toda a história do implante: lote, cirurgião, data da operação, etc.
Além do óleo de soja, o silicone vem sendo substituído por gordura e músculo abdominal da própria paciente, soro fisiológico e até fios de ouro.


