E pode ficar pior? - Mirian Guaraciaba
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quarta-feira, 11 de novembro de 1998
Mirian Guaraciaba 
Pode sim. Daqui por diante, a vida dos brasileiros perderá ainda mais em qualidade. Se não estávamos satisfeitos com o atendimento à saúde e a precariedade de milhares de escolas pelo país, o pacote anticrise do governo (cortes nos investimentos e custeios) nos trouxe mais angústia e preocupação.
E não se trata de pessimismo exagerado. São extremamente dolorosos os cortes no Orçamento da União. Foram promovidos pelo governo Fernando Henrique Cardoso para fazer frente aos reflexos no Brasil da crise econômica
internacional.
A tosa federal parece distante de nós, mas atinge a todos os brasileiros, sem discriminação de credo, cor, posição social. Adoecida, a saúde pública perdeu quase R$ 1 bilhão, suficiente para fazer funcionar centenas de postos e centros de saúde. O país, que vinha num processo razoável de desenvolvimento, poderá assistir a um retrocesso que deixará marcas no currículo do político Fernando Henrique Cardoso. Marcas desabonadoras. Para quem queria entrar para a história como o presidente que recuperou a estabilidade da moeda, será quase inevitável sair do governo carregando também a indecorosa etiqueta da recessão.
A reforma agrária perdeu 30% do seu parco orçamento. Essa é uma área em erupção. Está longe, muito longe da harmonia e progresso pretendidos pelo governo. O governo fez bastante até agora, é verdade. Mas milhares de sem-terra continuam sem terra. E milhares estão dispostos a brigar por ela.
Também é verdade que se fez muito pelas estradas brasileiras nesses quatro anos de governo Fernando Henrique. Mas falta tanto que o corte de 44% nos recursos do Ministério dos Transportes será mais do que deplorável. Será um atraso de vida. Pior para os brasileiros que transitam nas estradas. Dados de 1996 indicam por exemplo que 93% dos passageiros que se deslocam de uma cidade para outra usam ônibus. Apenas 7% viajam de trem e avião. Nem a redução das tarifas aéreas foi capaz de mudar radicalmente o hábito mais barato.
Muito pior para o funcionalismo público. O corte orçamentário traz no pacote a má notícia de que os servidores ficarão pelo menos mais um ano sem aumento salarial. O governador eleito Joaquim Roriz já sabia disso quando prometeu os 28%/. Disse na semana passada que poderá atrasar um pouco o cumprimento da promessa. Roriz não sabe exatamente quanto dará o reajuste. Diante de tantos talhos, não sabe se terá condições para conceder.
O presidente Fernando Henrique Cardoso também sabia do túnel escuro que o país estava atravessando desde a crise da Ásia, no ano passado, agravada com
o desmonte econômico da Rússia e os problemas do Japão. Também fez promessas demais. O dinheiro que estava disponível antes dos cortes já não seria suficiente. Isso ficou claro em seu primeiro mandato - que termina no dia 31 de dezembro.
A comparação entre o programa de governo anunciado na campanha de 1994 (Mãos à Obra) e os feitos do governo mostra que muita coisa ficou para trás. Imaginemos agora com muitos bilhões a menos. Aliás, uma conta difícil de fazer, mas fácil de entender no cotidiano de quem precisa de escola, saúde, terra, estrada...
- MIRIAN GUARACIABA é jornalista em Brasília


