E o presidente voltou atrás...
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 13 de outubro de 1997
José Carlos Tiburcio 
Desde que começou, há três anos, o governo Fernando Henrique Cardoso vem jogando pesado em cima da agricultura, contradizendo o que o candidato Fernando Henrique Cardoso disse no palanque: que a atividade agrícola teria juros compatíveis, que haveria dinheiro na hora certa para plantar e para colher, que haveria respeito pelo preço mínimo, que faria reforma agrária, que faria uma revisão na política de importação...
Mas quando assumiu, o presidente FHC voltou atrás, alegando que a agricultura deveria se modernizar e ser profissional. Não viabilizou recursos, abriu a importação, os juros ficaram absurdos e impraticáveis. É bonito se ouvir que é preciso modernizar a agricultura, mas de que jeito, se em qualquer outro país um trator é trocado a cada seis anos (custa a metade do que custa no Brasil), enquanto aqui só podemos fazê-lo de doze em doze, porque os impostos sobre equipamentos são excessivos?
A máquina pública, esta sim continua azeitada e rodando tranquilamente. Recursos para ela não faltam, ninguém segura a farra de se gastar mais do que se ganha. O governo impõe regras duras aos outros, mas não faz a sua parte. Como é o maior tomador de dinheiro no mercado, os juros ficam altos e o dinheiro não aparece na hora certa.
Usando um câmbio artificial, o governo tira o real da realidade e impõe a ele uma fantasiosa supervalorização. Assim, faz com que as importações cheguem de uma forma violenta ao mercado, gerando, como no caso do trigo, milho, algodão, rami e os têxteis em geral, a âncora para segurar a inflação. Isso estabeleceu um déficit na balança comercial nunca visto antes. O governo dá prêmio a quem sonega e especula.
Em muitos casos, o produto agrícola importado tem metade do imposto pago lá fora, ficando o restante para ser recolhido em prazo de até 180 dias, sem juros. Com isso, o importador está, na verdade, esquentando dinheiro. A operação faz com que os preços mínimos caiam, obrigando o produtor a vender o seu milho a R$ 5,00 a saca, enquanto o preço mínimo é de R$ 6,70.
A indústria, que não consegue competir com os importados privilegiados, também está sucateada e engolida pelos bancos por causa dos juros altos e dos impostos embutidos. Quando vende com prazo de até 90 dias, tem que embutir o custo do prazo e também juros nos impostos.
A reforma agrária virou piada. O MST, dirigido por políticos de esquerda, junto com a CUT e parte do PT, percebe a fraqueza e a desorganização do governo através do Incra e de alguns governadores. O MST tira proveito da situação, invadindo propriedades, produtivas ou não, e acaba com a paz no campo. Estarrecida, a sociedade vê produtores rurais ser amarrados e espancados em sua própria propriedade, quando não são mortos.
O MST será eterno, mas a reforma agrária prometida por FHC jamais acontecerá se o governo continuar impassível. O verdadeiro produtor rural venderá sua propriedade por não poder pagar as contas e irá morar na periferia da cidade. Quando o pouco do dinheiro terminar, voltará para a beira da estrada como um novo sem-terra. Diante desse quadro, verifica-se cada vez mais que é preciso municipalizar a reforma agrária, para que a paz volte ao campo. Os sem-terra de outros Estados que estão no Paraná têm que se cadastrar na sua origem e não aqui.
Apesar de tudo, a agricultura é o único setor da economia que tem uma balança comercial positiva. Se for tratada de forma correta, principalmente agora que o mercado internacional é comprador (pelo efeito de El Ni¤o) é possível salvar a nossa lavoura, alavancar nossa exportação e equilibrar nossa balança. E ainda gerar muitos empregos.
Se tivermos que importar mais produtos agrícolas, mais o rombo será agravado, mais dólares faltarão. E aí, corremos risco de desdobramentos graves como crise cambial, desvalorização do real e até a volta da inflação. O governo não pode errar mais e deixar a agricultura em segundo plano.
Além de outras providências, o governo precisa rever a securitização, que não será paga por causa de seus juros; fazer seguro agrícola para proteger o produtor rural e não um seguro voltado a proteger sempre os bancos; precisa fazer seguro total daquilo que foi financiado e daquilo que o produtor deixar de colher.
Com estas ações, diminuiremos a fome e a miséria que assolam o país. São 30 milhões de famintos. O governo precisa entender que a saúde preventiva entra pela boca, que fica muito mais caro depois de tratar da doença. O governo precisa fazer valer a palavra empenhada pelo presidente.


