E o mundo não se acabou
Um samba-choro muito antigo, composto por Assis Valente, tinha como título E o Mundo não se acabou, bastante sugestivo nessa véspera da passagem do milênio. Os versos da música descobri num jornal de 1999, e por terem a graça e o espírito bem brasileiros, passo-os aos leitores: Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar/ Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar... acreditei nessa conversa mole; Pensei que o mundo ia se acabar/ E fui tratando de me despedir/ E sem demora fui tratando de aproveitar/ Beijei na boca de quem não devia/ Peguei na mão de quem não conhecia/ Dancei um samba em traje de maiô/ E o tal mundo não se acabou ... Ih! Vai ter barulho e vai ter confusão/ Porque o mundo não se acabou.
No ano passado, os meios de comunicação, especialmente a televisão, investiram pesadamente na passagem do século, na passagem do milênio. As agências de viagem e a estrutura hoteleira de todo o País faturaram horrores oferecendo o Réveillon do Século. Parecia que todo mundo estava afim da dançar um samba em traje de maiô.
Feitas, porém, as contas, que ainda são contestadas por algumas pessoas, concluiu-se que o 2001 é que marca o primeiro ano do século XXI, e não o 2000. Por via das dúvidas, nesse final de ano não houve o frenesi ligado à imaginária mudança de uma era para a outra, nem se ouviu falar de milenaristas e apocalípticos, nem que o mundo iria acabar.
Isso dá o que pensar, pois parece que se os fatos não são trazidos à tona pela imprensa, eles não existem. Estão por aí, mas como não sabemos deles, não têm realidade para nós, que nos contentamos em geral em conhecer apenas nosso cotidiano familiar e do trabalho, as futricas da vizinhança e os boatos que correm sobre política local.
Mesmo na era da Internet as pessoas ainda vivem em suas tribos, indiferentes aos acontecimentos distantes ou desconhecendo o que se passa. Portanto, aí está o paradoxo desse final de século: na era da informação, os seres humanos continuam desinformados. Falta-nos tempo, falta-nos vontade, falta-nos motivação, assim como nos falta uma maior capacidade de assimilação diante dos milhões de fatos que nos são ofertados pela mídia ou que não nos interessamos em pesquisar.
Continuamos, pois, como seres seletivos nesse limiar do terceiro milênio da Era Cristã, escolhendo apenas as informações que de maneira vital nos interessam para nossa sobrevivência imediata. E por causa disso mantemos aquela característica que vem desde os tempos imemoriais dos nossos ancestrais mais rudimentares: somos facilmente dominados enquanto massa por uma minoria que detém de forma mais ampla algum tipo de informação que não dominamos ao que parece, isso não vai mudar por mais que rolem os milênios.
Voltando a imprensa. Neste final de ano não vi nem li nenhuma notícia sobre o que no ano passado foi descrito como síndrome de Jerusalém, o fenômeno que faz com que determinadas pessoas que chegam aos lugares santos acreditem ser figuras bíblicas, portadoras de mensagens divinas ou que crêem na vinda do Messias. Possivelmente, também por influência da mídia, que insistiu em finais de 99 na virada do século que não houve, Jerusalém foi palco de inúmeras dessas manifestações.
Por exemplo, li em dezembro de 1999, que um americano chamado Bobby Bilble, que há mais de 40 anos percorre as cidades da Califórnia em uma caminhonete, vestido com uma batina preta, carregando em uma das mãos uma Bíblia e em outra uma pequena cruz de madeira, acreditava que existia pelo menos 30% de chances de Jesus Cristo ressuscitar em Jerusalém, no Monte das Oliveiras, na madrugada de 1º de janeiro de 2000. Bobby, que se dizia um profeta, foi cauteloso, pois previu 70% de chances de Jesus não ressuscitar. Ele chegou a dizer, que se Jesus não chegasse naquele 1º de janeiro, teríamos que esperá-lo com paciência.
Entretanto, em seitas cujos líderes passaram anos dizendo que Jesus iria ressuscitar e o mundo iria acabar, os adeptos podem ter ficado abalados, entrado em depressão ou mesmo tentado o suicídio. Mas isso não ficou esclarecido nos noticiários, como não teve registro se nesse final de ano Jerusalém foi de novo palco das performances dos turistas que se crêem messias ou esperam pelo aparecimento de Jesus. E como nada disto foi dito, é como se não tivesse acontecido.
Em todo caso, pelos exemplos do ano passado relativos à síndrome de Jerusalém, constata-se outra característica da humanidade que dificilmente irá mudar mesmo que decorram séculos e séculos: o ser humano, que geralmente é desinformado, pode ser facilmente enganado. E quanto mais absurda é a mentira, mas ele acredita nela. Mesmo porque, sem um ideal no qual acreditar, e sem um alvo pelo qual lutar, a vida não tem sentido. Por isso prosperam os ideólogos, os demagogos e os charlatães, e tal coisa não vai mudar nem que cheguemos a outros planetas.
Mas essências e fragilidades humanas à parte, não se pode dizer que nada evoluiu nesse século. Pelo contrário. Apesar das guerras, dos totalitarismos comunista e nazista e seus horrores, da miséria e das desgraças que ainda campeiam por este vasto mundo, fomos marcados no século XX com verdadeiras revoluções nas áreas científica e tecnológica, nos meios de transporte e das comunicações e, especialmente, pelo advento da informática. Inclusive, na era dos computadores um mundo novo foi criado, sendo que nele o conhecimento e os relacionamentos humanos estão sendo inseridos em outras dimensões ainda não devidamente avaliadas.
Tudo isso tende a se acelerar nos próximos anos, não para fazer os homens melhores ou piores do que são, mas para ajudá-los a viver mais com menos dor e mais conforto. E isso não é pouco. Ainda mais que o mundo não se acabou. Portanto, renovemos nossas esperanças e um feliz e iluminado século para todos.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina
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