E nos chamaram de gente atrasada
Sobrou para quem não diz amém ao governo. Não só a irritação, os prejuízos e a culpa pelo caos instalado na telefonia de todo o País. O ex-ministro das Comunicações, Mendonça de Barros, chamou de ‘‘gente atrasada’’ a quem reclama da pressa oficial nos processos de privatização. A notícia não é nova, mas vale a pena revivê-la. Afinal, trata-se do mesmo Mendonção afastado do ministério há alguns meses por falar demais ao telefone. Seu comentário da semana passada saiu na coluna de Dora Kramer, no ‘‘Jornal do Brasil’’.
O ex-ministro falou a propósito das falhas gravíssimas ocorridas na implantação do sistema de telefonia adotado pelas empresas - as que arremataram as telecomunicações no Brasil. O novo serviço é sofisticado demais, disse o ministro. E quem discorda é gente atrasada.
Cabe lembrar ao ex-ministro, hoje acolhido no ninho da direção do PSDB, que os brasileiros, que não sabem usar o telefone, são consultados rotineiramente por institutos de pesquisa sobre o governo de Fernando Henrique Cardoso. Se fossem tão atrasados, estariam aprovando, com honra ao mérito, o desempenho do presidente.
O discurso continua absolutamente otimista. O presidente acredita que o mal das pesquisas de opinião não o alcançará. Tem dito a assessores que o importante é o jeito como ele vê seu governo e seu ministério. E ele está gostando de quase tudo. Vai mudar alguns ministros, mas nada de reformas estruturais.
Fernando Henrique acha que terminará o governo nos braços do povo. Imagina que os brasileiros vão tirar de letra percalços como os do caladão dos telefones, o apagão que se repetiu duas vezes em quase todo o País, os índices de desemprego, o não reajuste dos salários dos servidores (há cinco anos), os aumentos de combustível, água, luz, telefone, planos de saúde, escolas.
Importante mesmo é que a inflação esteja sob controle. Mas onde estão embutindo os índices de aumentos promovidos pelo próprio governo? Como a inflação pode estar controlada com seguidos reajustes? Os brasileiros respondem à confiança do presidente dando nota baixa ao governo. Em todo o País, despenca o índice de popularidade que garantiu sua eleição, em primeiro turno, em 1998.
Pesquisa do Instituto Vox Populi, sob encomenda da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) divulgada ontem e que está sendo publicada hoje, mostra que a queda de popularidade de Fernando Henrique é acentuada. Para quem já teve mais de 50% de aprovação, fica difícil desprezar 17% em abril, 15% em maio, e 12% em junho. Entre os que desaprovam o governo, a platéia também cresceu.
O desinteresse do presidente pelos números e tendência do eleitorado não ajuda o governo. Ao contrário. As autoridades deixam de saber por que os brasileiros não gostam do que eles consideram sensacional.
Está evidente que não basta mais a tese de que a economia está recuperada. Os brasileiros - consumidores e contribuintes - não são gente atrasada que se satisfaça apenas com um dos lados do desenvolvimento.
- MÍRIAN GUARACIABA é jornalista em Brasília

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