Inês Faria de Carvalho é psicóloga e atende os adolescentes do Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Infrator (Ciaadi) em Londrina. Apesar de terem histórias e personalidades diferentes, Inês conta que é possível traçar algumas características em comum entre os meninos. Duas delas são constatadas pela própria estatística do centro e se referem ao uso de drogas e evasão escolar (ver matéria nesta página). Outras são mais sensíveis e reveladas no dia-a-dia.
Inês aponta que eles têm uma quebra no desenvolvimento psicossocial que gera várias incertezas e problemas. ''Eles não tem perspectiva de vida, é como se não tivessem direito ao sonho, não se permitissem acreditar que podem sonhar'', descreve. Ela revela também que muitos são integrantes da 2 ou 3 geração de migrantes da zona rural. ''Os pais ou avós deles vieram para cá e não encontraram seu espaço'', acrescenta. Este ano, a psicóloga conta que atendeu à vários meninos filhos de pais alcólatras, o que ela caracteriza como ''péssimo exemplo''.
A negatividade do mundo é apontada como uma das causas para o ingresso dos adolescentes no mundo do crime. ''Eles têm clareza de que não vão conseguir um emprego. O menino que se torna infrator não acredita que indo à luta ele vai conseguir algo'', explica a psicóloga. Além disso, ela declara que a maioria deles não sabe lidar com a frustração nem com a afetividade.
Outro problema enfrentado por eles é a falta de opção. Sem dinheiro, eles não conseguem fazer cursos, comprar objetos desejados e o lazer também fica limitado. ''Eles não têm paciência de esperar para fazer um curso, trabalhar e só então ter dinheiro'', aponta. Vindo de famílias de renda baixa, a privação de vontades é rotina.
Para Inês, o que falta para a recuperação integral dos adolescentes são políticas de atendimento. ''A maioria das escolas não quer esses meninos, não conseguimos encaminhá-los para cursos, porque é tudo pago, e muito menos para trabalho'', enfatiza. Por isso, ela aponta que um comprometimento maior de toda a sociedade poderia resgatá-los. ''Aqui você percebe que eles têm um outro lado, você vê neles a beleza de ser gente'', justifica. (F.B.)

mockup