É Natal. Quisera não começar este artigo com frase tão batida e simplória. Mas há certos chavões, repletos de significados, que são insuperáveis em nossa língua, como de resto em todas as línguas. O ‘‘é Natal’’ se faz uma dessas expressões universais que guardam em si todas as possibilidades de paz entre os homens, de caridade, de amor ao próximo e de profunda esperança na construção de uma humanidade feliz.
É Natal. E faremos tudo que se convencionou até agora para marcar o nascimento do Cristo. Compraremos peru, nozes, avelãs e presentes. Nos fartaremos em ceias fraternas. Alimentaremos nossas almas por um dia, na vã esperança de termos um homem melhor, preocupado com seus semelhantes, amando-os como a si mesmos, da forma que ensinou o crucificado.
É Natal. Desejei muitas vezes guiar-me pela fé - conheço algumas pessoas que assim o fazem e possuem uma alma de perfeita bondade. Almas que, definitivamente, não são deste mundo e certamente garantem-lhe a sobrevivência - mas, por graça ou desgraça, sobra-me apenas a razão. Ela me diz que o Natal de há muito está descaracterizado de suas finalidades. O cristão de hoje é visto apenas como consumidor, e a felicidade, e a fraternidade, e o bom Natal, só se farão em nossos corações na proporção da nossa capacidade de consumo.
É Natal. O mundo pertence aos hipócritas e cínicos. São eles que induzem ‘‘valores’’ no próprio valor. São eles que viram no ato do presentear dos Reis Magos a grande jogada de agregar o consumo a uma festa que deveria ser desprovida de qualquer significado material, posto que festejamos o nascimento daquele que veio ao mundo para nos libertar do nosso exagerado apego à matéria e de todos os vícios daí decorrentes.
É Natal. Vi o murmurinho nas ruas nesta véspera, no ir e vir dos bons cristãos transformados em ávidos consumidores, em máquinas de comprar e vender. Na calçada, um pedinte estende as mãos vazias e exibe suas pernas tomadas por feridas. As moedas dadas por pessoas sem rostos despencam numa caixinha de papelão colocada do lado do homem - ou do que restou dele. E ‘‘um Deus lhe pague’’ infinito é sussurrado a cada moeda cadente. Um Papai Noel raquítico faz apelos na frente de uma loja. A igreja está vazia. E a minha descrença aumenta.
É Natal. Volto para a Redação e vejo algumas estatísticas e torno-me definitivamente descrente nas coisas do céu e principalmente da terra. A Unesco contabiliza todos os dias 35 mil miseráveis mortos em todo o mundo. Eles morrem de fome ou de alguma doença facilmente tratada pela medicina moderna. A metade da população mundial, cerca de 3 bilhões de pessoas, está abaixo da linha da miséria.
É Natal. E da primeira mordida num panetone até a meia-noite de hoje, 35 mil almas estarão livres de esperar alguma compreensão entre os homens, que preferem gastar um milhão de dólares num único míssil e negam o mínimo de solidariedade, que nada custa, aos seus semelhantes.
É Natal. Não se vive sem esperança. E em algum tempo, que parece inatingível, é de se esperar que os espíritos dos homens não se compadeçam de suas próprias feridas apenas neste dia. Em algum tempo, é de se esperar que a essência do amor pregado pelo Nazareno se faça em plenitude em nossos corações.
Em nossos corações é Natal.
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina

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