Ele já foi caminhoneiro, auxiliar administrativo e repositor de supermercado. Hoje, com 40 anos e formado em Marketing e Administração de Empresas, Nilsinho Gonzales investe num dos ofícios mais criticados da atualidade: o de camelô. O secretário-executivo da ONG Canaã, que administra o Camelódromo de Londrina, defende a classe e diz: é tudo fruto da alta tributação.

Ser camelô ainda é o ''último'' refúgio ou se tornou um negócio interessante para qualquer um?
O trabalho não exige muito. Todo mundo tem um dom de venda. Desde o começo nós tivemos, no nosso meio, pessoas que não sabiam ler nem escrever, mas sabiam vender. Londrina é isso ainda, mas a cidade não quer olhar debaixo do tapete.

O seu perfil contraria isso...
Em 2000, quando comecei na rua, já contrariava. Porque nós temos aqui, não vou falar de segregação racial, mas um preconceito muito grande. Eu tinha 2º grau, alguns cursos, mas meu perfil não preenchia os requisitos.

Você sente desconforto atuando num ramo conhecido por se sustentar na concorrência desleal e por tirar empregos do mercado formal?
Não. Você cria oportunidades, é um nicho de mercado. O que tira postos de trabalho não é o camelô, é a tributação. A carga é grande sobre o comerciante e ele tem de demitir. O cara vai pra rua, compra umas coisinhas e sai vendendo, porque não vai passar fome. Tem gente que não tem cara para roubar.

Dados da Confederação Nacional da Indústria apontam que o País deixa de gerar 1,5 mi de empregos por ano com a pirataria. É justo resolver um problema social criando outro?
O problema da pirataria já está na carga tributária. Segundo: ela existe porque os produtos originais são muito caros. E não é só pessoa de classe C, D, que compra não. Classe abastada compra porque não quer pagar caro, tendo o similar mais barato.

A indústria diz que os preços poderiam baixar se não precisasse compensar o que perde com a pirataria.
Papo furado. Acho que cada um tem de brigar pelo seu. Não estou defendendo a pirataria, só estou dizendo que, para acabar com uma coisa, tem de se mexer em outra.

O que alavanca as vendas no Camelódromo ainda são produtos pirateados como DVDs, CDs e games?
(Instante de silêncio) É... Pode ser. Não tenho essa estatística. Deve ser.

Dentro do Camelódromo, já tivemos comerciante preso por clonagem de celular, apreensão de brinquedos irregulares, venda de óculos sem receita e até de remédios. A ONG Canaã é conivente com práticas fora-da-lei?
A ONG gerencia condomínio. Cada empresa responde por si. Já pensou se tivermos de cuidar de 340 comerciantes?

A Acil apoiou os camelôs à época da criação do Camelódromo. Hoje é só briga. O que mudou?
A mentalidade do presidente da Acil. Na época, o George (Hiraiwa) apoiava os pequenos comerciantes. Hoje, a Acil, o Sincoval, não estão fazendo nada pelo comércio. As entidades tinham de se unir, procurar os camelôs para ver as idéias que eles têm. Essa de querer nos culpar por estarmos acabando com o comércio formal... é simplesmente incompetência.

Você gostaria de ter outro emprego?
Já fiz tanta coisa na vida. Quero, no futuro, dar aula na minha área. Mas não que esteja insatisfeito. Ser camelô foi uma coisa que deu certo e não tenho vergonha não.

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