É justo falar em desemprego e crise? - Gilclér Regina
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 21 de abril de 1999
Gilclér Regina 
O aumento do desemprego no Brasil reflete um erro estatístico. Mede-se apenas nas grandes capitais. E os empregos que surgem nas outras cidades? E no interior? E nas cidades turísticas? Não são conhecidos. Já há gente que diz que dentro de quinze anos o maior PIB brasileiro será da Bahia. Hoje a Bahia já constrói 8 grandes resorts. No Reveillon passado e também no Carnaval, repetindo a dose, a cidadezinha de Porto Seguro recebeu 200 aeronaves, algo como um avião aterrissando ou decolando a cada cinco minutos. O futuro do emprego é o turismo e ele será a indústria do futuro.
Também refletindo sobre o assunto, chegamos ao conceito que faz a seguinte pergunta: aumentou a inadimplência ou aumentou a informação? Parece-nos que antes, a informação não estava disponível. Crise no Brasil? A Encyclopédia Brittânica bateu todos os recordes de vendas dos últimos quatro anos em fevereiro deste ano de 99, mês de Carnaval, mês pequeno, 28 dias, num país de muitos analfabetos, semi-analfabetos, onde ainda não existe uma cultura disseminada de leitura de livros.
Como é que pode? Se fizermos as devidas pesquisas, iremos nos surpreender com o grande número de empresas que estão batendo seus recordes de vendas nestes tempos que alguns chamam de crise. O Brasil não irá quebrar nunca, porque acima de tudo tem um povo muito criativo. O chinês pode quebrar porque chinês pensa tudo igual. O povo argentino acha que a Argentina vai quebrar... e quebra. O brasileiro, mesmo aquele desempregado, você o encontra na rua, encostado num muro, assoviando, e se passa uma mulher bonita já faz o comentário: Que mulherão, rapaz. Ele acha que no fim tudo irá dar certo.
Isso sim é que é um país especial e que apesar destas tempestades, irá saber suplantar com criatividade, bom-humor e trabalho, rumo ao primeiro mundo. Quem viver, verá. O Brasil tem hoje o 2º maior mercado do mundo de telefones celulares, fax, jatinhos executivos, televisores, helicópteros, computadores... O País possui hoje o melhor sistema bancário mundial - via de regra, uma compensação de cheques da mesma cidade nos EUA leva quatro dias.
O Brasil apresentou ainda a maior revolução da qualidade nos últimos sete anos. O Mercosul atingiu agora as metas previstas para o ano 2001. Das 500 maiores empresas do mundo, 405 estão presentes no País. Um país que oferece 451 modelos de carros 0 km, 87 tipos de molhos de tomate e empresas como a Kibon que lançou 25 novos sabores, num mercado que lançou um novo tipo de biscoito a cada 15 dias.
É claro que estamos vivendo uma era sem precedentes. Trezentos anos de jornal podem ser transmitidos em 1 segundo. O que levava um século para acontecer, hoje leva um mês, e ainda queremos tirar um mês de férias, ou melhor, um século... O PIB brasileiro hoje representa 42% do PIB da América Latina, incluindo o México. Como pode um país deste não dar certo? Sabemos que os próximos cinco anos irão mudar tanto quanto mudou os últimos 30 anos.
E para nos prepararmos frente aos novos desafios precisamos mudar o comportamento que fala de crise. A mídia aponta todos os dias para empresas que estão crescendo agora, como indústrias de calçados, de refrigerantes, de cervejas, laboratórios químicos, rede varejista de farmácias, empresas de telemarketing e outras...
Precisamos nos inspirar na seguinte história: Dois homens encontram-se numa enfermaria de hospital. Um deles tinha autorização para ficar na janela olhando para fora. O outro, impossibilitado de mover-se, não saía da cama. Aquele que olhava pela janela, descrevia para o seu companheiro de quarto o que via lá fora - um lago, muitas árvores, crianças brincando... O companheiro, imobilizado, ficava imaginando as cenas descritas pelo seu amigo e sentia-se motivado a deixar a cama e ficar curado logo. Queria fazer qualquer coisa para poder ver o que havia lá fora. Passado um tempo, o seu companheiro de quarto teve um enfarte e veio a falecer. Ele aproveitou a ausência do amigo e pediu para ficar próximo à janela e num esforço incrível levantou-se para olhar lá fora e viu... apenas um muro!
Muitas vezes, um empresário, diretor, chefe, supervisor, vendedor ou mesmo um pai, mãe, professor, tem que fazer o mesmo com seu pessoal, com seus filhos, com seus alunos jovens. Embora enxergando a crise ou um muro à sua frente, não pode deixar de passar uma visão diferente, estimulando as pessoas a quererem sair da cama e olhar o mercado de uma maneira diferente, viva e de oportunidades. Não se trata de mentir ou enganar as pessoas.
Trata-se de tentar mostrar que além do muro existem outras realidades, outras oportunidades que são igualmente verdadeiras e que o muro é que nos está impedindo de enxergar. Será que não ficamos olhando para a crise o tempo todo e descrevendo um grande muro aos nossos amigos? Será que não é o momento de apresentarmos uma visão do que poderá de fato existir além do muro?
- GILCLÉR REGINA é escritor e consultor de programas de motivação e qualidade em Maringá
[email protected]


