É hora de somar
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 13 de janeiro de 2003
Renan Calheiros* 
É consenso, hoje, que a vitória do presidente Lula nas urnas constitui um marco histórico na fisionomia política do País. Mudanças estão ocorrendo em práticas e costumes, se não pelo ideário das forças agora hegemônicas, ao menos pela intenção manifesta do governo de dar um sacolejo na política. O momento, portanto, exige posturas sintonizadas com este sentimento nacional por mudanças efetivas.
Com uma enorme dívida social para ser administrada, o desafio de manter os fundamentos da economia intocáveis, sem falar nas reformas que devem viabilizar o combate perene à fome e a erradicação da miséria, não há mais espaço no cenário político para escaramuças ou disputas inter ou intrapartidárias. Isto é o que o País espera desta nova modelagem política.
É hora de somar forças a um projeto nacional e não de fazer trincheiras na oposição. As naturais pressões decorrentes das demandas políticas, sociais e econômicas têm de se submeter ao desafio de enfrentar o formidável paredão das tensões sociais. Diante dessa perspectiva, é preciso conceder um período de carência para que os que acabam de assumir possam engatar as marchas da administração. Temos de garantir, desde já, o apoio necessário à governabilidade porque quando esta se torna ameaçada a maior vítima não é o poder: são os brasileiros. E estes, em sua ampla maioria, desejam, como confirmam as pesquisas de opinião, que todos colaborem com o Governo.
Qualquer acirramento das disputas gerará tensão na arena política. O pragmatismo, para satisfazer necessidades precisas e concretas, minará os confrontos doutrinários, aumentando o grau de despolitização e carimbando as siglas com epítetos negativos. A nova administração terá de efetuar um enorme esforço para satisfazer as demandas que devem ser coletivas e não pessoais. O jogo político, menos contrastado, não deve esfumaçar as identidades partidárias, estimulando a fulanização política. Nesse cenário, é imprescindível caminhar com um mínimo de estabilidade, que se projetará sobre a moldura mais ampla das instituições. Os incêndios devem ser combatidos para permitir que a manivela das mudanças, comandada pelo presidente Lula, se encaixe nos parafusos dos novos paradigmas da política e em seus atores.
Diante dos possíveis impasses, o novo governo deve demonstrar força e maturidade para manter os acordos políticos na esfera partidária e institucional. Como ensinou Maquiavel, ''cuide o príncipe de vencer e manter o Estado: os meios serão julgados honrosos e louvados por todos, porque o vulgo está sempre voltado para as aparências e para o resultado das coisas''. A rapidez com que o Governo estabelecer a esperada agenda nacional e montar uma maioria coesa no Congresso pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso. Este é o grande risco. Não para as instituições, mas para o próprio relacionamento entre o Executivo e o Legislativo e para o futuro do País.
Renan Calheiros é ex-ministro da Justiça e líder do PMDB no Senado


