Impossível não pensar, nesses dias de grampos e dossiês sobre supostas contas no exterior, num livro clássico da literatura política ‘‘A Revolução dos Bichos’’, de George Orwell. Trata-se de uma belíssima e amarga fábula sobre a Revolução Russa de 1917. No livro de Orwell, os bichos de uma fazenda se rebelam contra os homens, tomam o poder e instauram uma nova ordem política. À medida que o tempo passa, porém, os porcos, escolhidos pelos outros bichos para serem os chefes dessa nova ordem, acabam se parecendo com os homens. E tudo volta a ser como antes, quando os homens exploravam os bichos.
Guardadas as devidas proporções, já que não passamos por nada parecido com a revolução em que Orwell se inspirou, estamos assistindo os novos donos do poder se comportarem como seus antecessores. Documentos falsificados, transações suspeitas, ameaças de CPI são lembranças que nos remontam, obviamente, aos últimos dias do governo Collor. Meses e meses de depoimentos, investigações, depoimentos de última hora e uma disputa na imprensa para saber quem conseguiria levantar as provas da última falcatrua da Corte.
O que a situação brasileira tem a ver com o livro de Orwell? Tem que os que assumiram o poder depois do terremoto do impeachment de Collor, quando parecia que uma nova ordem havia se instalado no País, mostraram-se dispostos a usar os mesmos métodos da turma anterior. Não vai aqui a conclusão de que há gente do governo com contas no exterior nem de que houve falcatruas na privatização da Telebrás. Há, sim, a constatação de que, tanto no governo Collor quanto nos episódios atuais, o dinheiro e o patrimônio públicos foram tratados como se não tivessem dono. É essa prática, que parece se repetir governo após governo, que dá margem às suspeitas de corrupção.
As conversas gravadas do ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros com o presidente do BNDES, André Lara Resende, são didáticas. Os dois arvoraram-se no direito de decidir o que era melhor para o País. Negociaram um bem público como se fosse seu, manobrando nos bastidores para armar e detonar consórcios interessados em levar um naco das empresas de telecomunicações. Importa pouco saber a intenção com que os dois fizeram as negociações. Diz o velho ditado popular que o inferno está cheio de gente com boas intenções.
O fato é que os dois extrapolaram a função para qual foram colocados nos respectivos cargos. Na transcrição dos diálogos, ambos parecem jogadores de pôquer blefando um com o outro ou com eventuais interessados no leilão. São senhores da situação, cidadãos iluminados por algum tipo de inteligência superior que os mortais são incapazes de compreender. Pelo que explicaram até agora, os contribuintes deveriam até agradecer-lhes pela ajuda. Estivessem eles trabalhando para a iniciativa privada ou para um cliente particular, teriam sido mais comedidos em suas ações e humildes na hora de explicar o que fizeram. Os dois, não. Sentiram-se ofendidos.
A idéia de que homens do governo, por estarem no governo, estão acima de qualquer suspeita e isentos da obrigação de se explicarem é que abre espaço para as falcatruas e para a mesma constatação amarga de Orwell. Já não se sabe quem é bicho e quem é homem.

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