E Harvard não se curvou!
Em sua segunda volta pelos jardins da Casa Branca, Trump mirou as universidades
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 06 de maio de 2025
Em sua segunda volta pelos jardins da Casa Branca, Trump mirou as universidades
João dos Santos Gomes Filho 
O desgoverno estadunidense exigiu da universidade de Harvard, notória por sua excelência, o cumprimento de algumas exigências políticas absolutamente fora do circuito acadêmico. Fê-lo sob a ameaça de cortar bilhões de dólares de seu orçamento.
Pausa para reflexão: exigir de uma universidade (pública ou privada) a implementação de uma pauta política, sob ameaça de cortar o seu orçamento, é sintoma fascista (naquilo que tutela a ditadura do pensamento único) – violência similar seria, a meu juízo, a criação de escolas cívico-militares...
Identificada a ameaça fascista, voltemos ao trilho da história, apontando as tais exigências de Trump: suspensão de políticas de diversidade, equidade e inclusão; realização de uma auditoria sobre a diversidade de pontos de vista entre estudantes e professores; mudanças na liderança da universidade; adoção de punições mais severas a estudantes envolvidos em protestos.
Com dizia meu avô materno (Paulo Isaías, fabuloso amigo), não há nada tão ruim que não possa ser piorado.
Assim, não satisfeito em pear a belíssima diretriz acadêmica em fomentar políticas de socialização, o beócio quer punir o estudante norte-americano por protestar, que nada mais é que exprimir sua consciência. Noves fora, vivi para ver uma violência desse tamanho, praticada na outrora apelidada ‘terra da liberdade’.
Para além da intentona fascista em que se perde a América do Norte, o multiverso donaldiano vem se notabilizando por confrontar e esmagar o que restou do legado de Abrahão Lincoln – e isso não é pouca coisa.
Harvard, todavia, disse não a ameaça fascista, em uma carta dirigida à administração republicana, onde em síntese afirmou: "Harvard não renunciará à sua independência, nem aos direitos que a Constituição lhe garante; Nem Harvard, nem nenhuma universidade privada pode permitir que o governo federal a controle; Harvard não está disposta a aceitar exigências que vão além da autoridade legítima desta administração ou de qualquer outra".
A resposta da universidade explica, em grande medida, porque Harvard é Harvard, ao tempo em que asperge filigranas de um passado maior e plural, matriculado no legado de Lincoln.
Deveras, em sua segunda volta pelos jardins da Casa Branca, Trump mirou as universidades. Fê-lo muito porque o universo acadêmico tem sido cenário, desde o ano passado, de protestos que se avolumam contra o genocídio praticado pelo estado de Israel contra os palestinos, notoriamente na faixa de Gaza.
A toda evidência, está marcada na história a tentativa de um presidente estadunidense de se imiscuir no cenário do conhecimento, chantageando a mais fina flor da academia de nossos dias, para imposição de sua pauta política alinhada ao desgoverno de Israel.
Se isso não incomoda os herdeiros de Lincoln, acredito que ele não deixou qualquer herança aos pilgrins do século XXI – aliás, por onde andam os bravos e valentes da terra da liberdade? Seriam somente um slogan? Apenas Harvard resiste?
Harvard, para felicidade de Abrahão, acena em sentido diametralmente oposto ao comando fascista que a administração Trump implementa em solo estadunidense e, com força em sua excelência, além de rechaçar o assédio fascista, reafirma a grandeza histórica que os do Norte vem perdendo há décadas.
Não se trata de gostar dos pilgrins ou não e sim de ler nas entrelinhas totalitárias do atual mandatário a imposição de uma agenda neoliberal divorciada da realidade sócio econômica do mundo, indo muito além do jardim...
Ao tentar esgrimir a crescente perda de competitividade mercadológica de tio San, o atual mandatário sublevou a grandeza de outrora, elastecendo a veia imperialista pilgrin, hoje colorida na fascização de suas escolhas.
Deveras, há décadas os Estados Unidos vêm se imiscuído na autodeterminação dos povos (notadamente terceiro mundistas), fomentando golpes de estado que albergam ditaduras militares em ordem a lhe facilitar a perpetuação explorativa travestida na ideia de livre comércio.
Exagero meu? Nem um pouco. Vide da operação Condor ao que passou recentemente em Bolívia, de quem tio San queria o lítio (para agradar Elon Musk e seus carros elétricos) sem contrapartida equânime.
Outro tanto, manter o embargo econômico de Cuba, desde 1960, não convola qualquer justificativa outra que não a visão imperialista dos pilgrins. Vietnã, Arábia Saudita, Kuwait, Iraque, Afeganistão, dentre outros, sentam à mesa da espoliação, onde tio San carteia e joga de mão.
Tristes trópicos, onde o imperialismo totalitariza nossas ilusões e o mundo escorre feito o pó que a estrada levanta na poeira da história.
Saudade Pai!
João dos Santos Gomes Filho, advogado
***
Os artigos, cartas e comentários publicados não refletem, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina, que os reproduz em exercício da sua atividade jornalística e diante da liberdade de expressão e comunicação que lhes são inerentes.
COMO PARTICIPAR| Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres e no mínimo 1.500 caracteres. As cartas devem ter no máximo 700 caracteres e vir acompanhadas de nome completo, RG, endereço, cidade, telefone e profissão ou ocupação.| As opiniões poderão ser resumidas pelo jornal. | ENVIE PARA [email protected]


